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quinta-feira, 22 de julho de 2010

Crepúsculo e Aurora após o fim da História

Os olhos dela se apagavam, acompanhando o pôr do sol. O cinza em torno da íris se tornava cada vez mais escuro e pálido, enquanto todo o resto parecia dizer adeus ao mundo apenas porque o dia terminava. Vi as formas de seu rosto desaparecerem perante mim, e guardei aquelas linhas por alguns instantes após o anoitecer, mas elas me fugiram, embora minha amada continuasse na mesma posição. Sentia ainda sua presença, seu cheiro, e essa percepção física me consolava do fato de sua mente estar, para mim, para sempre, fechada. Desejei mergulhar naqueles olhos e buscar aquilo que um dia tive (ou acreditei ter), mas não mais via as janelas, cuja cor eu sabia não ser cinza. Longe dos seus braços, recostado em uma árvore de casca áspera e incompreensiva, adormeci um sono rude e inconsistente. Não sonhei, ou não me lembrei. Quando acordei, alguns minutos depois, percebi, sem ver, que ela não estava mais lá. Esperei que meus olhos se acostumassem com a escuridão, e então notei que sob o céu de estrelas inclementes e sem lua o campo continuava o mesmo onde ela me disse coisas que jamais sairiam da minha memória. Levantei, cambaleei, segui meu caminho através da trilha lamacenta.

Em algum momento da noite sonhei. Revivi meses em horas, momentos bons e ruins, coisas que havia, acredite, esquecido. No sonho havia o terror de nada poder controlar, e imagino que de alguma forma deva ter percebido a semelhança com a vida. Sonhei com ela, comigo, com dias e noites e cheiros e cores e nomes e flores e ódios e dissabores e água e pele e calor e frio e acordei. Acordei com o sol batendo em meu rosto. Era o dia seguinte (assim dizia o jornal que tentei ler mais tarde) e eu preferia que não houvesse amanhecido. Me arrastei para além do lençol bagunçado, senti o frescor do chão ferir meus pés assim como a luz rasgava minhas córneas. Me dirigi ao banheiro como ao matadouro e me joguei embaixo da água fria do chuveiro, para depois perceber que ainda estava semi-vestido. "Meu Deus, preciso acordar", pensei. Me enxuguei, escovei os dentes mais por instinto que por vontade e me vesti com algo que imaginava apropriado. Acredito que comi algo. Deixei o carro na garagem e fui andando para o trabalho, desafiando o sol escaldante da manhã. A fumaça e barulho dos carros não me acordou; pelo contrário, parecia criar uma cortina que minha vontade desmanchava para revelar o espetáculo que havia revisto diversas vezes desde a noite anterior.

"Ela não vai voltar", dizia para mim mesmo, e os transeuntes acompanhavam meu martírio.


death in flowers, de *tonysandoval

domingo, 29 de novembro de 2009

Heterocromia

Foi nos olhos de minha amada que entendi a dicotomia no amor. Ela tinha, como de praxe, dois olhos, que lhe eram mais espelhos que janelas, fechada em si como todo crente. Eu, mergulhador, via em suas íris as tonalidades dos seus dias e os fragmentos de tímidas aventuras diárias calcadas em padrões e variáveis calculáveis até pelo amador. Os mistérios do meu amor não estavam em seu rosto, mas algo nesses receptáculos de luz multicolorido me chamava a atenção para algo além, e, se me conhecem, sabem que transcender é um vício do qual nunca me abstive.

Heterocromia é o nome dado à natureza bicolor dos olhos da minha inimiga. No esquerdo habitava o mar, o azul, e nele afundei-me; nele nadei e me perdi; encontrei-me e nada encontrei nas profundezas daquele lago. Também enfrentei o magma resfriado do âmbar do olho direito daquela que amei e que nunca me amou, e era como uma parede que jamais atravessei; vi que essa era a essência do órgão, decidi não desafiar a natureza.

Passei por pupila, íris, córnea, cristalino, retina, ligações nervosas, cheguei ao cérebro, à memória, à alma. Viajei, fui herói, nada vi que pudesse relatar; talvez nada houvesse, talvez fosse cego.

E desse modo compreendi que na profundeza ou na superficialidade não há nada a ser encontrado nos olhos desta ou das outras que me torcem, contorcem, distorcem, quando meramente me refletem por janelas fechadas ou abertas para uma casa vazia.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

How, in so many ways, I killed Vicaria

It was the knife on monday. They say it was harsh, I say it was practical. Not as Tuesday. The rope took some minutes, the neck didn't break. Not as in the movies. The pills took even longer. Wednesday. I couldn't try anything else that day; you know that. For Thursday I had the car show planned, and the fire was beautiful. On Friday I took her to the Zoo, and she loved the tigers. Saturday night was the day for party, with the mob, and those so many holes made me feel sorry for her.

On Sunday I rested, on Sunday I healed her memory, for I loved and mourned for her. On Sunday I wrote this poem, I read it to her - and she loved it.


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

War

It was not the smell of death that shocked me, even though I could feel it, but the impossibible silence of the scene. It could have been the first bullet that made me deaf, but, still, all those things I saw seemed to me as images from a dream, nothing more than symbols, the writings of God in the walls of my vision, telling me of things forbidden, of things that should not be, and maybe are not, but were there, in front me, defying all I knew as true and trustworthy, the sacred and miraculous state of the immovable, the Universe, the mind of God, made flesh and, now, unmade.

Soft Construction with Boiled Beans (Premonition of Civil War), 1936
Salvador Dali