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segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Rebirth

It was a night like many others, when the sky is dark and thick like old blood. The timeless stars roamed the vast void, now and again clouded by heavy, doom-laden clouds. It was March, and the president, like Caesar, feared for knives cloaked in praises and honeyed words.

Alberto Casares had been elected by the people - the poor, prejudiced, mobish and sacred people - to bring back a forgotten age of greatness, one that had been rekindled in their imagination by this shaper of words, a former bard tuned politician turned messiah. He brightened their wretched lives with tales of heroes and kings of old, great man and women who shared their blood and soil, who lived still in them.

He talked of the voice in the blood, the thick, dark, sky-like blood of liberators and tyrants, knights and knaves, saints and whores. To a people used to hearing about the economy, it sounded like thunder in the void. He tore the thread, halted the march of History, and put black boots and golden cloaks back on the streets. Fear and Glory once again prowled the late vigils of the night, and invaded the dreams of the corrupt and weak.

Alberto Casares was a warrior poet.

But neither warriors nor poets are meant for the throne. They must die in battle, become martyrs for the cause, and live in Eternity the life that was denied to them; lest they fade slowly and are consumed by the perpetual procession of the hours. Casares was no simple-minded prophet, however, and this settled his doom. He ruled well, kept people fed, got the economy back on track, and looked magnanimous on posters. Straw mattresses were now filled with the white feathers of swans and covered with the softest silk. And even though life had never been better, the people were not content.

Against the backdrop of star-lit vastness, a candle lamp glowed over a stack of papers. Contracts, executive orders, subpoenas. The unseen world of bureaucracy, hidden behind the flair, gold, and bone-white smiles. He stared at them, hunched over them, while he dreamed of kings and set himself up to their measure, finding himself wanting. Why, he thought, why did it go so wrong?

Down below from the star-gazed stars gazing down lay the city, its many beds laden with those many bodies and minds, and inside the thick blood, dreaming of glory promised but never delivered. With a new fire building up inside they dreamed of kings, yet found they had a president; of swords, yet carried guns; of dragons, yet worried about Mondays; of God, yet found only ephemeral flesh.

And between snores they cursed their ruler.

When awake, things went on as usual. Life always goes on as usual. But how long would this fire be contained?, the president thought. How long will they still go on about as usual, while the world freezes in conformity? I promised them fire, he thought, so why can I not deliver the flame and brighten up the night?

It must be stated that he tried, hard, to make the world what he would like it to be. He did not read any political treatise, but the old epics, and sang no song whose words he could understand. He wore a suit, but always over a hairshirt. He shaved, but not like a bureaucrat, but like a legionnaire. And he slept, but little, always on the floor, always hungry, always on edge. He worked at all hours, for even his dreams where his people's. He was the living ideal he aspired them to look up to. And yet, coals where the fire should be. How to rekindle them?

He gazed at the stars, the same stars that his ancestors gazed upon, dead like them, but more alive than anyone breathing down below. He read, sang, and dreamed of kings and emulated them, but had he been thinking like them? What would they do in a situation such as this? Declare war against an enemy, to awaken the numbed will of his people? Design and build great projects, walls and bridges? What about the largest temple in the world, dotted with the sculptures depicting the great men of ages past?

And as he pondered those things, his mind’s eye was captured by Ulisses. King, sailor, adventurer, avenger. Old, cruel, beautiful and industrious Ulisses, sleeping on the floor with goats, working the rig with his men, facing certain doom with trembling and passion, for he did not value his own life so muh that he’d risk not living it for the sake of a longer stay on Earth.

And from him and like men Greece flowed.

Alberto Casares looked down to his city. And he looked down on his city.

He thought of the men and women down there. The fire burning in their hearts, as they slept under silk sheets. Their hearts, hard and wanting, resting on soft matresses. The ancient skies called out to them, but they shut them out with well-cared-for roofs.

The fault was not Alberto Casares’s. The fault was Alberto Casares's people’s.

He ruled well, kept people fed, got the economy back on track. The people joined a golden age of comfort, with its pleasures, with its sins. They grew as soft as that age, and weak, entitled, spoiled.

He gave them a Golden Age when they needed a Dark Age.

The president understood his failure. He should have been a simple-minded prophet, an utter  fool even. He should have crashed the economy, made his people starve and sleep on the hard floor under the endless, timeless, star-like gaze of their ancestors. Then they would remember.

Had he been a martyr, his people would be better off. So, what about a million martyrs?, he thought.

Trembling, he reached for the lamp that lit unworthy, dead words. He raised it to the sky, with a libation, and let it fall and then rise, to cover himself, his city, the world.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A Caixa

Ah, algo importante: a ilustração desse post é de autoria da Jazz. Visite o deviantart dela, tem muita coisa boa lá.

Bem, é isso. Espero que goste do conto :)

* * *
“E os dias da minha vida foram como a crina do cavalo trançada pelos ventos do destino”

Me criei na Babilônia, como meu pai e seu pai antes dele. Minha mãe era de terra estranha, onde os homens se amam e reservam às mulheres pouco interesse. Soube que meu pai a resgatara deste atoleiro de perversão e deuses estranhos e a transportara em segredo ao nosso lar, eu já em seu ventre. Sou, na verdade, filho do deserto, mas ao nascer meus olhos se voltaram para o Portal de Ishtar (o atravessei muito antes de Sikander), e não chorei.

Meu pai era um abastado mercador, nascido sob as graças de Asaru, e no entanto me fiz crescer nas ruas por vontade própria e nelas aprendi mais que na escola à qual era obrigado a comparecer. Meu pai não se dignou a domar meu espírito, ele próprio tomado por um espírito audacioso (Certa vez ele matara um mercador que julgava o estar enganando; mais tarde, descobriu que o homem era honesto e matou todos os empregados e escravos deste mercador, para que o segredo não se espalhasse. Ele agia segundo o seu coração, que estava nas mãos dos deuses, cuja sabedoria não discutirei).

Muito aprendi com meu pai até que um punhal em uma noite de verão o ceifou em um beco à saída do templo de Marduk. Naquele mesmo beco vinguei meu pai, e verifiquei que o punhal do assassino era patrocinado por um homem imune ao Código. Corri ao lar, tomando tudo que a meu pai pertencera e, junto de minha mãe, abandonei a cidade que amei mas que nunca fora minha. Tinha treze anos e por treze noites dormimos no deserto até alcançar a terra de minha mãe. Seus pais estavam mortos, aparentemente pelas próprias mãos, e não herdamos sua casa. Não precisamos, três camelos trazíamos conosco e eles carregavam riquezas suficientes para comprar toda aquela cidade vil, repleta de homens que pensavam demais.

Naquela terra à beira do mar escolhi um lar para minha mãe que, à vista de nossa riqueza, foi logo cortejada por homens. Ela não se interessou por nenhum deles mas, em vista de que em terra estranha precisaríamos de um homem na casa, escolheu um forasteiro (que seu nome se perca na noite e em Arallu) de maneiras sutis e olhar misterioso, de idade avançada e que não a perturbaria na cozinha ou no quarto: O estrangeiro nunca tomara para si mulher, embora tivesse idade para ter netos (típico deste lugar, pensei), e me tomou por filho, sob seu nome e herança. Mudamo-nos para sua casa, distante das outras muito mais que o normal, sem escravos ou serviçais. O homem tinha dinheiro, mas também muitos gastos; conforme se passavam os meses vi se esvaírem através de seus dedos a nossa riqueza, e em seus negócios se perdiam anos de trabalho de meu pai. A cada mês enviava homens para todas as direções daquela terra infértil e recebia de volta esses homens, muitas semanas depois, exaustos de longas viagens e desprovidos de mercadoria alguma, salvo um eventual livro, um fragmento de tecido, um caco de cerâmica.

Isso muito me interessou, e tencionei descobrir o segredo do meu novo pai. Sondei seus olhos e palavras, em vão. Escondido nas sombras, como aprendi nas ruas da Babilônia, me instruí sobre o homem e suas maneiras. Seu quarto e seu escritório me eram de fácil acesso. Esgueirando-me pelos corredores mal cuidados e mal iluminados, sob sua cama (na qual minha mãe nunca se deitara) , por trás de colunas e paredes secretas, em seu armário, pude ouvi-lo com seus mensageiros, li suas cartas, seus livros, ouvi seus suspiros em sono profundo, e assim aprendi sobre a Caixa.

Antes minha curiosidade não me tivesse conduzido a isso. Mas a vontade dos deuses é inescrutável. Maldito seja o dia no qual aprendi sobre a Caixa. Sem nome ou história, ela era objeto de poder. O homem encontrara referência em um livro obscuro, e depois novamente na língua de um mercador (que ele ainda guarda em um pote), na tapeçaria de um persa, nos ventos da noite, que ele consultava com freqüência. Dizia, em sono profundo, que a caixa o tornaria poderoso. Dizia, maravilhas em seu interior aguardavam o sábio, o ousado. Mais aprendi em seu diário, mas não convém falar.

Em uma noite de lua cheia, sob o olhar desatento de Nana (como podem os deuses permitir tais coisas?), o homem sacrificou minha mãe através de uma incisão que começou em seu ventre e terminou no pescoço; em silêncio, observei, sem luto (não ouse julgar meu coração). O homem leu em suas entranhas a história da caixa, que lhe era explicada por uma sombra que ele chamava Sagulhassa sobre sua cabeça. Nas sombras ouvi e não interrompi.

Na manhã seguinte meu padrasto apareceu em meu quarto, fingindo surpresa, me alertando sobre o rapto de minha mãe. Juntos fingimos lágrimas, fingimos surpresa ao encontrarmos o corpo dilacerado em uma praia, fingimos luto no enterro. Guardei em mim o segredo, e aos poucos me estreitei laços com o homem, cuidando de suas finanças e auxiliando no que podia. Depois de um mês ele decidiu viajar, e eu conhecia o motivo. Esperava que ele me permitisse partir com ele, mas fui designado como guardião da casa e da riqueza. Presenteei-lhe a honraria com um punhal no peito e tomei seu lugar na viagem.

Segui os desígnios do ventre de minha mãe, e partirmos para a morada noturna do sol, através de colinas e, depois, montanhas. Animais selvagens nos acompanhavam em nossa viagem, mas não se aproximavam. Chacais, hienas, ouvíamos seus sons à noite, entre outros, que na época não conhecia; os homens da caravana falavam de espíritos, gênios. Não lhes dei ouvidos e silenciei os mais barulhentos. Mas, a cada dia que nos aproximávamos mais do destino, as dificuldades aumentavam: fiéis não conseguiam dedicar palavras a seus deuses, sonhos incômodos não os permitiam dormir, água e pão perdiam o gosto. Um a um meus homens desapareciam. Certa manhã, encontrei-me só no deserto, com um camelo, um cantil e um bilhete. Continuei em direção ao oeste.

Sob o sol do meio dia avistei no horizonte uma jóia branca que, brilhando sob o sol e tanto quanto Utu, não pude admirar como queria. Ao anoitecer, alcancei a cidade, e novamente não pude contemplar suas formas, devido às sombras. Não fui recebido a não ser pelo vento, pelo eco e pelo cheiro de fezes e urina, de chacais e hienas, por toda a parte. Contei seus pilares por uma hora, e não fui capaz de terminar. Não encontrei um copo que não fosse de ouro, não encontrei uma alma com que partilhar o vinho. Decidi que era uma cidade morta, e não dos mortos. No entanto, ela me era familiar, como se a conhecesse de um sonho, ou de outra vida. Na área mais central encontrei um templo, não como os da minha terra ou como os da de minha mãe. Suas paredes eram limpas, sem arte de qualquer tipo a não ser uma inscrição em língua estranha que não fui capaz de ler. Sem medo, adentrei.

Não haviam cômodos no templo, apenas um amplo salão. Em cada parede, estantes e livros. No centro, uma fonte, ainda com água; em seu interior, rãs, sapos, insetos. Examinei os tomos e encontrei volumes em várias línguas: grego, acádio, persa, elamita e outras que não conhecia ou sequer pareciam possíveis. Em um livro encadernado em couro vermelho aprendi que “o solo da Floresta Negra é tão absurdamente negro que o risco de se cair em um buraco acreditando-se estar sobre solo firme é bastante comum” e, em outro, adornado com dentes e com cheiro de urina li que “Em Antípodi é costume do pai, em caso de nascimento de gêmeos, devorar o filho mais novo evitando-se, assim, discussões sobre primogenitura ”. Encontrei a inscrição da entrada do templo na capa de um grande livro encadernado em ouro e adornado com jóias em cada página - suas páginas eram de prata maciça e seu conteúdo escrito em ouro; seu conteúdo era misterioso para mim. Deitei-me e, com o livro sob minha cabeça, adormeci.

Sonhei.

Caminhava no deserto. Era noite e a lua de prata e, sob meus pés, a areia de ouro reluzia. Uma figura se aproximava mais a cada instante. A alguns metros a luz da lua a se revelara sendo uma mulher bela, vestida com os trajes de minha terra, em suas mãos carregava uma bolsa e sobre ela uma inscrição, a mesma da entrada do templo. Seus olhos verdes repletos de ambição, enquanto me encaravam, se abriram em êxtase, suas pupilas se dilataram e então se apagaram. Ela caiu por terra, enquanto um homem, negro como a noite, se escondia em um beco da Babilônia. Abri o saco, e nele encontrei uma adaga, com a qual abri o ventre da mulher. Em seu bojo, a escuridão.

Acordei e me virei vendo, ainda sob o torpor do despertar, uma cobra morta, com marcas de mordida; em direção à porta, pegadas de chacal. Suava e tremia. Tentei decifrar o sonho e fui incapaz. Procurei pelo chacal, para perscrutar em suas entranhas meu destino, mas estava só. Ao anoitecer notei, na fronteira entre a cidade e o deserto, uma coluna fumaça. A segui, e, minutos depois chegava a uma pequena casa, diferente das demais da cidade, pouco mais que uma cabana. Entrei, e encontrei um homem sentado em uma cadeira; sem parecer surpresa se levantou e me olhou nos olhos. Ele me abraçou, sem proferir palavra, e se foi, montado em um cavalo. Em meu bolso, encontrei uma chave; levantei meus olhos, vi a caixa sobre um pedestal de madeira e me aproximei, sem tocá-la.

Ela era negra, como ébano, como a noite, como a chave. Retirei o artefato do meu bolso e examinei suas formas novamente. Era uma chave como qualquer outra, mas, negra como a caixa, parecia roubar a luz à sua volta. Por algum motivo, não imaginava aquele pedaço de metal (seria metal?) capaz de abrir qualquer coisa, como se não fosse uma chave, mas algo que se disfarçava nessa forma, como uma faca querendo ser espada ou um camelo querendo ser rei. Introduzi a chave na fechadura e a virei tantas vezes quanto pude, sem resultado. A cada vez que virava a chave na fechadura, ouvia um som, mas a caixa permanecia fechada. Tentei virar a chave mais algumas vezes, em várias direções. O esforço me tomou alguns minutos, mas o processo de destrancamento da caixa me iludia. Faltava algo.

Atentei para uma inscrição na caixa e notei que era a mesma do templo. A caixa, notei melhor, era muito parecida com o templo. Observei seus detalhes e toquei-lhe em cada ponto, buscando uma solução para aquele mistério, sem resultado. Procurei solução nas paredes à minha volta, mas também não encontrei nada que pudesse me ajudar. O guardião já deveria estar muito distante no deserto e eu não sabia onde estava meu camelo.

Depois de várias horas de decepção e inútil contemplação agarrei a caixa bruscamente e a levantei com ambas as mãos, com facilidade, e a balancei. Nenhum som. Sentindo-me enganado, lancei, com todas as forças, o artefato contra o chão, e ouvi o som de madeira se lascando ao mesmo tempo em que ouvi o som de madeira batendo ao chão e se rompendo. Ouvi, estranhamente, o som de aço sendo rasgado, de carne sendo cortada, do fluxo de um rio sendo rompido . Ouvi os gritos da minha mãe, quando nasci, e ouvi os meus. Ouvi ainda muitos outros sons, no que parecia ser a eternidade e um instante, enquanto a sala se iluminava cada vez mais, e tremia, como se o chão fosse se abrir sob minhas pernas. À porta, que vi pela última vez, estava o chacal, que olhava para mim e, posso jurar, haviam lágrimas em seus olhos. A luz tomou conta de tudo e, com ambas as mãos, tapava os ouvidos, inutilmente. Fechei os olhos e tudo se tornou silêncio. Quando os abri, o mundo não estava mais lá.

* * *

Por dentro, a caixa se parece ainda mais com o templo. Cheguei a essa conclusão depois de tocar cada centímetro de seu interior, ao longo dos anos. Não pela visão, não. É muito escuro aqui dentro. Não sei ao certo há quanto tempo estou aqui. Não defini nenhum método de medição dos dias, mas não me importo. Aqui os dias, meses, anos, fluem, como se não existissem. Arranquei e comi meus olhos há algum tempo atrás. Sei que foi há alguns anos, pois não sinto mais dor, nem me lembro do gosto. Não o fiz por fome, não sinto fome ou sede. Achei apenas um desperdício não fazê-lo. Dentro desse espaço não encontrei segredo ou poder. Sei que estou só, mas não acredito que será para sempre. Alguém, nos anos que virão, descobrirá em um livro uma menção a este lugar, e iniciará uma busca. Nos livros e nas estrelas perscrutará mistérios, iniciará uma busca, encontrará a casa e a chave, vislumbrará a caixa. Disso não duvido. Não duvido também que tentará abri-la. Se suceder, estarei livre. Se não, ao menos terei companhia.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Crepúsculo e Aurora após o fim da História

Os olhos dela se apagavam, acompanhando o pôr do sol. O cinza em torno da íris se tornava cada vez mais escuro e pálido, enquanto todo o resto parecia dizer adeus ao mundo apenas porque o dia terminava. Vi as formas de seu rosto desaparecerem perante mim, e guardei aquelas linhas por alguns instantes após o anoitecer, mas elas me fugiram, embora minha amada continuasse na mesma posição. Sentia ainda sua presença, seu cheiro, e essa percepção física me consolava do fato de sua mente estar, para mim, para sempre, fechada. Desejei mergulhar naqueles olhos e buscar aquilo que um dia tive (ou acreditei ter), mas não mais via as janelas, cuja cor eu sabia não ser cinza. Longe dos seus braços, recostado em uma árvore de casca áspera e incompreensiva, adormeci um sono rude e inconsistente. Não sonhei, ou não me lembrei. Quando acordei, alguns minutos depois, percebi, sem ver, que ela não estava mais lá. Esperei que meus olhos se acostumassem com a escuridão, e então notei que sob o céu de estrelas inclementes e sem lua o campo continuava o mesmo onde ela me disse coisas que jamais sairiam da minha memória. Levantei, cambaleei, segui meu caminho através da trilha lamacenta.

Em algum momento da noite sonhei. Revivi meses em horas, momentos bons e ruins, coisas que havia, acredite, esquecido. No sonho havia o terror de nada poder controlar, e imagino que de alguma forma deva ter percebido a semelhança com a vida. Sonhei com ela, comigo, com dias e noites e cheiros e cores e nomes e flores e ódios e dissabores e água e pele e calor e frio e acordei. Acordei com o sol batendo em meu rosto. Era o dia seguinte (assim dizia o jornal que tentei ler mais tarde) e eu preferia que não houvesse amanhecido. Me arrastei para além do lençol bagunçado, senti o frescor do chão ferir meus pés assim como a luz rasgava minhas córneas. Me dirigi ao banheiro como ao matadouro e me joguei embaixo da água fria do chuveiro, para depois perceber que ainda estava semi-vestido. "Meu Deus, preciso acordar", pensei. Me enxuguei, escovei os dentes mais por instinto que por vontade e me vesti com algo que imaginava apropriado. Acredito que comi algo. Deixei o carro na garagem e fui andando para o trabalho, desafiando o sol escaldante da manhã. A fumaça e barulho dos carros não me acordou; pelo contrário, parecia criar uma cortina que minha vontade desmanchava para revelar o espetáculo que havia revisto diversas vezes desde a noite anterior.

"Ela não vai voltar", dizia para mim mesmo, e os transeuntes acompanhavam meu martírio.


death in flowers, de *tonysandoval

quinta-feira, 10 de junho de 2010

A Criança Demônio

.
Sonhei que além do oceano havia um outro eu. Sua miséria, tal como a minha, preenchia entre nós a distância, a ser transporta por nossos sonhos, por tanto tempo negados. A criança demônio, em nós, à nossa volta, da fúria da esperança se alimentara e agora oferecia a dois desgraçados a benção da escolha. A ignorância de ambos nos conduzirá ao caminho sem volta da decisão, que sempre conduz à tragédia, ao inevitável fim da oportunidade e destruição de algo que poderia ser. Ela, dos meus sonhos, dará lugar a outra, talvez melhor, talvez não. Que meu outro faça a escolha certa, ainda que tolo como eu, que sua moeda lhe seja mais verdadeira que os labirintos de minha sorte. Assim sonhei, e acordei com os murmúrios da noite, o rosto lavado pela dor e, nas sombras, vi minha sorte distorcida fugir dos meus olhos.

 She maybe come from the sea, por *tonysandoval