quarta-feira, 20 de abril de 2011

A Terrível Língua Alemã

 Como é do conhecimento de alguns de vocês, tenho me dedicado nos últimos meses ao estudo da Língua Alemã, e posso dizer, sem sombra de dúvidas, que é uma das coisas mais difíceis que já estudei. Acostumado com a gramática simples e intuitiva do Inglês, tive muita dificuldade para me adaptar às exigências por vezes absurdas da língua, sem falar na falta de regras e estruturação das frases quase alienígena. Continuo porque, apesar de bastante complicada, a língua é linda e apaixonante, assim como o são a Literatura e a música alemãs, sua história, suas lendas, arquitetura... enfim, conhecer a língua é parte da apreciação da Deutsche Kultur

 Claro, a vontade de ler Werther em alemão.


Quase que por acaso, a alguns meses, me deparei com um texto de Mark Twain sobre a Língua Alemã, e me senti aliviado em saber que mesmo um dos grandes gênios da Literatura de todos os tempos teve trabalho para aprendê-la. Deixo o texto abaixo para que quem quiser possa ter uma idéia dos desafios (e da grande beleza) que acompanham o aprendizado do alemão:

The Awful German Language

A little learning makes the whole world kin.
-- Proverbs xxxii, 7.

I went often to look at the collection of curiosities in Heidelberg Castle, and one day I surprised the keeper of it with my German. I spoke entirely in that language. He was greatly interested; and after I had talked a while he said my German was very rare, possibly a "unique"; and wanted to add it to his museum.

If he had known what it had cost me to acquire my art, he would also have known that it would break any collector to buy it. Harris and I had been hard at work on our German during several weeks at that time, and although we had made good progress, it had been accomplished under great difficulty and annoyance, for three of our teachers had died in the mean time. A person who has not studied German can form no idea of what a perplexing language it is.

Surely there is not another language that is so slipshod and systemless, and so slippery and elusive to the grasp. One is washed about in it, hither and thither, in the most helpless way; and when at last he thinks he has captured a rule which offers firm ground to take a rest on amid the general rage and turmoil of the ten parts of speech, he turns over the page and reads, "Let the pupil make careful note of the following exceptions." He runs his eye down and finds that there are more exceptions to the rule than instances of it. So overboard he goes again, to hunt for another Ararat and find another quicksand. Such has been, and continues to be, my experience. Every time I think I have got one of these four confusing "cases" where I am master of it, a seemingly insignificant preposition intrudes itself into my sentence, clothed with an awful and unsuspected power, and crumbles the ground from under me. For instance, my book inquires after a certain bird -- (it is always inquiring after things which are of no sort of consequence to anybody): "Where is the bird?" Now the answer to this question -- according to the book -- is that the bird is waiting in the blacksmith shop on account of the rain. Of course no bird would do that, but then you must stick to the book. Very well, I begin to cipher out the German for that answer. I begin at the wrong end, necessarily, for that is the German idea. I say to myself, "Regen (rain) is masculine -- or maybe it is feminine -- or possibly neuter -- it is too much trouble to look now. Therefore, it is either der (the) Regen, or die (the) Regen, or das (the) Regen, according to which gender it may turn out to be when I look. In the interest of science, I will cipher it out on the hypothesis that it is masculine. Very well -- then the rain is der Regen, if it is simply in the quiescent state of being mentioned, without enlargement or discussion -- Nominative case; but if this rain is lying around, in a kind of a general way on the ground, it is then definitely located, it is doing something -- that is, resting (which is one of the German grammar's ideas of doing something), and this throws the rain into the Dative case, and makes it dem Regen. However, this rain is not resting, but is doing something actively, -- it is falling -- to interfere with the bird, likely -- and this indicates movement, which has the effect of sliding it into the Accusative case and changing dem Regen into den Regen." Having completed the grammatical horoscope of this matter, I answer up confidently and state in German that the bird is staying in the blacksmith shop "wegen (on account of) den Regen." Then the teacher lets me softly down with the remark that whenever the word "wegen" drops into a sentence, it always throws that subject into the Genitive case, regardless of consequences -- and that therefore this bird stayed in the blacksmith shop "wegen des Regens."

N. B. -- I was informed, later, by a higher authority, that there was an "exception" which permits one to say "wegen den Regen" in certain peculiar and complex circumstances, but that this exception is not extended to anything but rain.

Leia o resto aqui.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Literatura enquanto Arte da Falha

A literatura é a arte da falha. Claro, muitos outros títulos e metáforas podem ser usados para definir uma das mais amplas e presentes formas de arte, mas nunca ouvi ninguém tratá-la como " arte da falha", e por isso insisto nisso. O sucesso, o correto andamento das coisas, a normalidade, nada disso deve importar ao escritor ou ao leitor. Não interessa que Romeu e Julieta vivam felizes para sempre, que Joseph K. encerre o Processo ou que Montresor convença Usher a sair de férias. Não, na literatura apenas o anormal interessa, e esse anormal não está nunca no espectro positivo, não será nunca (ou quase nunca) o grande sucesso, a grande felicidade. O escritor parte de um problema, parte da falha - e muitas vezes não sai dela, ou o faz, apenas para voltar mais tarde. Ele é um estudioso do fracasso, do erro, enfim, da matéria do mundo, mas não estudo o porquê da vida ser assim, mas o porquê da vida não ser de outra forma.

Imagino que concordarão comigo que o escritor tem fascinação com a lenta e calculada destruição de seus personagens, mas discordarão quanto à necessidade do leitor de vislumbrar o mal do mundo na literatura. Dirão que o leitor quer um final feliz. E eu direi que, se ele quer, que tenha um final feliz, mas não na arte. Best sellers estão disponíveis justamente para oferecer aquilo que o leitor quer; eles são feitos para agradar. O artista de verdade não busca amigos: ele quer ofender, maltratar, enfiar todos os dedos nas feridas, nas próprias e nas dos leitores. O verdadeiro leitor busca o mesmo: quer se ver nos personagens, despido, humilhado, analisado, explicado. A literatura tem o poder de nos dizer quem somos, ainda que através da arte do embuste. Entendam, nada tenho contra a cartase, mas que ela exista como redenção consequente da revelação, não como exigência comercial. Que o artista coloque um sorriso na boca do leitor, mas que também molhe seu rosto com lágrimas...

Talvez como reflexo dessa atividade, talvez como mera coincidência, o autor em si costuma ser falho, no sentido que nós mesmos usamos... Borges viveu com a mãe não até a maturidade, mas até a velhice, e muitos crêem que ele jamais alcançou a maturidade. Poe, assim como Dostoiévsky, viveu em probreza e dificuldades, vítima dos seus próprios descontroles. Kafka, por mais que tentasse, não conseguiu fugir da sombra do pai terrível e de seus próprios problemas. A lista continua, e é certo que os grandes não foram tão grandes em suas vidas pessoais como o foram em suas obras. Ou o foram mas, sob o ponto de vista da sociedade atual (que não muda muito com o tempo), foram homens falhos. Me dirão: Shakespeare! García Marques! E eu concordarei que esses homens foram reconhecidos em seu próprio tempo e aproveitaram a glória de sua arte. Mas, notem que, ainda assim, seus personagens sofrem. O público do teatro Elizabetano exige que Hamlet complete sua vingança, mas Shakespeare não pode permitir que ele viva para comemorar. A tragédia! Que esses autores sejam excessão, que se deliciem com vitórias; seus personagens, não.

Então, no esforço de aceitar essas mal arrumadas linhas sem nenhum argumento pétreo, me perguntam:Por quê? Direi: Não sei. Mas creio que a falha é algo profundo, ancestral e arquetípico. Quem, afinal, não se sente, com variada frequência, um fracasso?

Ophelia, de Hamlet

domingo, 19 de dezembro de 2010

103 frases de Oscar Wilde

Descaradamente copiado do blog A Caixa do Tee.


Oscar Wilde, 1854 - 1900


1. É absurdo que alguém tenha uma regra rígida e imutável para aquilo que deve ou não deve ler. Mais da metade da cultura moderna depende daquilo que a pessoa não deveria ler.
2. Segundo alguns, as mulheres amam com os ouvidos, exatamente como os homens amam com os olhos. Admitindo-se que realmente amem.
3. A beleza é a única coisa contra a qual a força do tempo é vã. As filosofias se desmancham como areia, as crenças sucedem-se uma após a outra, mas o que é belo é uma alegria para qualquer época, e é algo que pertence à toda a humanidade para sempre.
4. As perguntas nunca são indiscretas; as respostas, às vezes, podem sê-lo.
5. A única coisa de que podemos ter certeza acerca da natureza humana é que ela muda.
6. Todo o mundo sabe compadecer o sofrimento de um amigo, mas é preciso ter uma alma realmente bonita para se apreciar o sucesso de um amigo.
7. O egoísmo não consiste em vivermos conforme os nossos desejos, mas sim em exigirmos que os outros vivam da forma que nós gostaríamos. O altruísmo consiste em deixarmos todo o mundo viver do jeito que bem quiser.
8. Um homem que não tem pensamentos individuais é um homem que não pensa.
9. Aquele que se mantém o mais longe possível de seu século é na verdade o que melhor o espelha.
10. As piores coisas sempre são feitas com as melhores intenções.
11. A base lógica do casamento é o recíproco mal-entendido.
12. Neste mundo só há duas tragédias. Uma é não ter o que se deseja, a outra é consegui-lo.
13. Para qualquer um que conheça a história, a desobediência é a virtude original do homem. É com a desobediência que se realizou o progresso.
14. O fato de um homem imolar-se por uma idéia não prova de forma alguma que ela seja verdadeira.
15. Experiência é o nome que todos dão aos seus próprios erros.
16. Cada efeito bonito que produzimos nos cria um inimigo; para ser popular, a pessoa precisa ser uma mediocridade.
17. Todas as pessoas fascinantes têm vícios: está aí o segredo de sua fascinação.
18. Em prol da estupidez há muito mais a dizer do que normalmente se pensa. Pessoalmente, tenho a maior admiração pela estupidez. Quem sabe seja por algum tipo de solidariedade.
19. Todos os homens são monstros. Nada pode ser feito a respeito, a não ser alimentá-los direito. Um bom cozinheiro pode fazer milagres.
20. Sempre vale a pena fazer uma pergunta, mas nem sempre vale a pena dar uma resposta.
21. Uma obra de arte é bela na medida em que é aquilo que a arte ainda não chegou a ser; querer medi-la com os critérios do passado seria como medi-la segundo uma regra tanto mais negativa quanto mais perfeita.
22. Há três tipos de déspotas. O déspota que brutaliza o corpo. O déspota que brutaliza a alma. O déspota que brutaliza o corpo e a alma. Ao primeiro dá-se o nome de príncipe. Ao segundo de papa. O terceiro é o povo.
23. A roupa é um produto, uma evolução, um indício importante, talvez o mais importante, dos costumes, dos hábitos e das maneiras de viver de cada século.
24. O amor é muito romântico mas não há nada de romântico ao se pedir a mão de uma jovem. Corre-se o risco de ela aceitar.
25. Sem dinheiro de nada adianta ser um rapaz simpático.
26. Enquanto a guerra continuar sendo considerada uma coisa má, nunca deixará de exercer um certo fascínio. Quando for considerada coisa vulgar, aí deixará de ser popular.
27. Cada um de nós passa a vida buscando o segredo dela. Pois bem, o segredo da vida é a arte.
28. A verdade não é propriamente o que contaríamos a uma boa, educada e fina mocinha.
29. Quando tocamos música boa, as pessoas não escutam. E quando tocamos música ruim as pessoas não falam.
30. É muito melhor aproveitar uma rosa do que examinar sua raiz no microscópio.
31. As mulheres feias são sempre ciumentas dos maridos; as bonitas nunca! Não têm tempo para isto. Estão ocupadas demais com o ciúme dos maridos das outras.
32. É absurdo classificar as pessoas como boas e más. Há pessoas agradáveis e pessoas maçantes.
33. As pessoas que amam a música são absurdamente irracionais. Gostariam que todos ficassem perfeitamente calados justamente quando gostaríamos de ser absolutamente surdos.
34. O único jeito de uma mulher reformar um homem é chateando-o até que ele perca qualquer interesse pela vida.
35. A obra de arte deve dominar o público. Não cabe ao público dominar a obra de arte.
36. Não podemos tornar as pessoas morais com uma lei do parlamento – e isto já é alguma coisa.
37. Desconfiem de uma mulher que confessa a sua verdadeira idade. Uma mulher que diz isto poderá dizer qualquer coisa.
38. Nada existe de mais irritante que a calma. Há alguma coisa totalmente brutal na tranqüilidade da maioria dos homens modernos.
39. As mulheres malvadas nos atormentam. As boas nos aborrecem.
40. Não acredito na existência de mulheres absolutamente puritanas. Acho que não há uma única mulher no mundo que não se sentiria lisonjeada ao ser cortejada.
41. A alma nasce velha e se torna jovem. Eis a comédia da vida. O corpo nasce jovem e se torna velho. Eis a tragédia da alma.
42. O passado não importa. O presente não importa. O que realmente interessa é o futuro. O passado é aquilo que os homens deveriam não ter sido. O presente é aquilo que eles não deveriam ser. O futuro será aquilo que os artistas são.
43. A vida é apenas um tempinho horroroso cheio de momentos deliciosos.
44. Quase dá vontade de definir o homem como sendo um ser racional que fica fulo de raiva toda vez que o forçam a agir segundo os ditames da razão.
45. Sempre percebemos alguma coisa ridícula nas emoções das pessoas que deixamos de amar.
46. Nesta nossa época a única coisa necessária é o supérfluo.
47. Na verdade, o homem não busca nem o prazer nem a dor, mas sim apenas a vida. O homem procura viver intensamente, completamente, perfeitamente. Quando conseguir fazer isto, sem lesar a liberdade alheia e sem nunca ser lesado, quando todas as suas atividades só lhe proporcionarem satisfação, ele será mais saudável, mais normal, mais civilizado, mais si mesmo. A felicidade é a medida pela qual o homem julga a natureza e avalia até que ponto está em harmonia consigo mesmo e com o ambiente.
48. Gosto dos homens com um futuro e das mulheres com um passado.
49. Segundo um ditado de um francês espirituoso, as mulheres inspiram-nos o desejo de criarmos obras-primas, e nunca nos deixam realizá-las.
50. Como definir uma mulher perversa? Ora, aquela de que a gente nunca se cansa!
51. Podemos resistir a tudo exceto às tentações.
52. Ser bom quer dizer estar em harmonia consigo mesmo. A discordância consiste em nos vermos forácos a estarmos em harmonia com os demais.
53. Receio que as pessoas de bem sejam a causa de infinitos males neste mundo. A pior coisa que fazem é certamente atribuir tamanha importância ao mal.
54. O Renascimento foi grande porque não procurou resolver algum problema social, e nem chegou a tratar de tais assuntos, mas permitiu que o indivído se desenvolvesse livremente, conforme a beleza e a natureza. Foi por isto que teve grandes artistas pessoais e grandes figuras pessoais.
55. Na Inglaterra as pessoas se esforçam para serem espirituosas no café da manhã. Isto é uma coisa francamente horrorosa. Só as pessoas enfadonhas podem ser espirituosas no café da manhã.
56. Uma idéia que não é perigosa não merece ser chamada de idéia.
57. Para conhecermos, mesmo superficialmente, a nós mesmos, precisamos conhecer profundamente os outros.
58. Depois de um bom jantar estamos dispostos a perdoar a todos, até aos nossos parentes.
59. Sempre falem com uma mulher como se estivessem apaixonados, e com um homem como se estivessem enfadados; no fim da temporada vocês terão certamente criado a fama de possuidores do mais requintado tato social.
60. Falar da própria ocupação é uma coisa muito vulgar. Só fazem isto os operadores da bolsa, e mesmo eles só durante o almoço.
61. Adoro as coisas simples. Elas são o último refúgio de um espírito complexo.
62. Todos nós estamos na lama, mas alguns sabem ver as estrelas.
63. Os homens sempre desejam ser o primeiro amor de uma mulher; este é um efeito de sua insensata vaidade. As mulheres têm um instinto mais sutil. Elas desejam ser o último amor de um homem.
64. Quando uma mulher percebe que já não é objeto das atenções do marido, ou se esquece de qualquer elegância, ou ostenta chapéus extremamente elegantes, pagos pelo marido de outra.
65. O homem se casa porque está cansado. A mulher porque está curiosa. Ambos ficam decepcionados.
66. O homem que se preocupa com seu passado não merece ter futuro.
67. Todas as mulheres tornam-se parecidas com as mães. É a tragédia delas. Isto não acontece com os homens. E aí está a tragédia deles.
68. As mulheres são um sexo fascinante e cabeçudo. Toda mulher é rebelde; por via de regra insurge violentamente contra si mesma.
69. O Estado deve fazer coisas úteis. O indivíduo, coisas bonitas.
70. Uma sociedade se embrutece muito mais inflingindo regularmente algum castigo que suportando de vez em quando algum crime.
71. O ciúme, que é uma das mais extraordinárias causas de crimes da vida moderna, é uma emoção intimamente ligada ao nosso conceito de posse, e que tanto no socialismo quanto no individualismo desaparecerá. É um fato incontestável que nas tribos de tipo comunista o ciúme é desconhecido.
72. A felicidade de um homem casado depende das mulheres com as quais não se casou.
73. O mundo foi feito por loucos para que os sábios nele pudessem viver.
74. As mulheres nos amam pelos nossos defeitos. Se tivermos um número suficiente deles, elas nos perdoarão tudo, até a nossa grande inteligência.
75. As circunstâncias são o acoite com que a vida nos fustiga. Alguns de nós o recebem diretamente na carne, outros por cima das roupas. Esta é a única diferença.
76. Qual a diferença entre jornalismo e literatura? O jornalismo é ilegível, a literatura não é lida.
77. A tragédia da velhice consiste não no fato de sermos velhos, mas sim no fato de nos sentirmos jovens.
78. Há muitas coisas das quais nos livraríamos com alegria se não houvesse outras pessoas dispostas a usá-las.
79. Por trás de toda coisa deliciosa há uma coisa trágica. Os mundos precisam sofrer muito para que uma flor desabroche.
80. Não há outro jeito de livrar-se de uma tentação a não ser sucumbindo a ela. Se você resistir, a sua alma adoecerá desejando aquelas coisas que lhe foram recusadas.
81. Não podemos ser excessivamente cuidadosos ao escolher os nossos inimigos. Nenhum dos que tenho é um imbecil. São todos homens de algum valor intelectual e, por conseguinte, me apreciam.
82. Gosto mais das pessoas do que dos princípios; e gosto das pessoas desprovidas de princípios, mais que de qualquer outra coisa no mundo.
83. Para apreciarmos a qualidade de um vinho e sabermos de um safra foi feito, não precisamos tomar um tonel inteiro.
84. Nada existe mais bonito que esquecer, a não ser talvez ser esquecido.
85. Londres tem neblina e gente séria demais. Se é a neblina a criar gente séria ou se é a gente séria a criar neblina, isto não sei dizer.
86. Adoro os jantares em Londres. Os convidados inteligentes nunca escutam e os convidados estúpidos nunca conversam.
87. O segredo parece ser a única maneira de se tornar misteriosa e maravilhosa a vida moderna. A coisa mais banal adquire um toque fascinante quando for feita às escondidas.
88. O homem pode acreditar no impossível, mas nunca acreditará no improvável.
89. Os historiadores de antigamente nos apresentavam deliciosos romances na forma de história; os romancistas de hoje nos apresentam fatos tediosos na forma de romance.
90. Por via de regra, as autobiografias modernas são escritas por pessoas que perderam quase completamente a memória e que nunca fizeram coisa alguma digna de ser lembrada.
91. A instrução é uma coisa muito bonita, mas vale a pena lembrar de vez em quando, que nada daquilo que realmente interessa pode ser ensinado.
92. Toda vez que fazemos uma coisa realmente idiota somos movidos pelos motivos mais nobres.
93. Hoje em dia conhecemos o preço de tudo e o valor de nada.
94. De sobrecasaca e gravata branca, todos, até os operadores da bolsa, podem crar a fama de homens civilizados.
95. As boas intenções foram a ruína do mundo. Os únicos que fizeram alguma coisa foram aqueles que não tinham intenção alguma.
96. Quando os críticos não concordam, o artista é coerente consigo mesmo.
97. A fé é a coisa mais complexa que eu conheço. Supõe-se que acreditemos todos na mesma coisa de forma diferente. É como se estivéssemos comendo do mesmo prato com colheres de várias cores.
98. O conceito popular de saúde é extremamente nobre. Um cavalheiro inglês do interior cavalgando a galope atrás de uma raposa – o inominável perseguindo o incomível.
99. Não há livros morais e livros imorais. Há livros bem escrito e livros mal escritos. Só isto.
100. Os que encontram significados perverso nas coisas belas, são corruptos sem serem agradáveis.
101. Escolho os meus amigos pela beleza, os meus conhecidos pela respeitabilidade e meus inimigos pela inteligência.
102. Prefiro a música de Wagner a qualquer outra coisa. É tão barulhenta que a gente pode conversar durante a execução, sem que os outros posam ouvir o que estamos dizendo.
103. O eco é quase sempre mais lindo que a voz que ele repete.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

1822 (resenha)


 É maravilhoso descobrir, muito depois de abandonar os bancos escolares, a história da Independência do Brasil e do Primeiro Império. As personalidades vivas de D. Pedro I, José Bonifácio, Imperatriz Maria Leopoldina e de Thomas Cochrane, tão bem delineadas no livro, ajudam a dar cor e vida aos acontecimentos do século XIX dos dois lados do Atlântico. É impressionante o quão rico e interessante o país era e quão significativas foram as ações de tantos homens e mulheres durante esse período conturbado, repleto das dores do parto da Independência brasileira, que só foi alcançada, como sugere o título do livro, por um milagre (ainda que banhado em sangue, regado a ouro e abençoado por acordos e trocas de favores).

Além disso, o livro é uma ferramenta de descoberta dos ranços e avanços de um Brasil que carrega os mesmos problemas desde os tempos de colônia: povo pobre e ignorante, uma elite quase tão ignorante e repleta de vícios e falhas de caráter, desigualdades sociais, concentração de renda, intrigas tanto domésticas como em âmbito internacional, violência bárbara, impostos absurdos, dívida externa... A lista vai longe, mas a obra demonstra algo que infelizmente não temos hoje: O país nas mãos de um grupo de pessoas com amor patriótico e sincero desejo de tornar o Brasil uma nação maior e melhor.

Do mesmo autor de 1808 (que narra a fuga da família real portuguesa para o Rio de Janeiro, em fuga do exército de Napoleão), o livro consegue não apenas ser informativo como também extremamente divertido, e o segredo, creio, está em colocar no centro do palco das mudanças as pessoas que coroaram a história brasileira com suas idéias e ações.

 
Laurentino Gomes, o autor