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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

(Meus) livros favoritos de 2015


E 20014 terminou. Nesse ano consegui bater meu recorde de livros lidos e, felizmente, não apenas numericamente mas também na qualidade. Decidi fazer, como fiz no ano passado, uma lista dos meus favoritos desse ano, para ser ignorada como aquela. A lista não consta os MELHORES livros que eu li, mind you, apenas meus favoritos. Ah, e eles estão arbitrariamente organizados, porque esse negócio de listinha com primeiro colocado simplesmente não dá mais.



Jonathan Strange and Mr. Norrel, de Susanna Clarke



Um dos livros mais divertidos que eu já li. Inglaterra, século 19: séculos depois do sumiço do Raven King, que trouxe a magia para o “nosso” mundo, a prática de mágica deixou de existir e todos os magos existentes são apenas teóricos. No entanto, dois homens totalmente diferentes decidem voltar a praticar magica: Gilbert Norrell e Jonathan Strange, que não tem nada em comum e, em certos pontos, são até inimigos, mas que tem uma coisa em comum: um interesse obsessivo pela magia.
A autora brinca com as tradições literárias Inglesas, principalmente as românticas, fazendo referências veladas diversas a autores como Jane Austen e Horace Walpole. Ela ainda adiciona diversas notas de rodapé que explicam acontecimentos anteriores àqueles do livro e dão mais cor à história (esses rodapés, com seus livros inventados, me lembraram das brincadeiras de Borges).
A descrição mais curta que eu poderia dar para esse livro é “Harry Potter para adultos”; mas como a história pode também ser lida por crianças, assim como Harry Potter pode ser lido por adultos, acho que a descrição não cabe, mas fica, já que ela me veio tão naturalmente à cabeça. Até onde vi, não foi traduzido para o português (baita mancada).



Grendel, de John Gardner



A premissa é simples: a história do poema Beowulf contada pelo ponto de vista do monstro Grendel. Mas a simplicidade para por aí, pois o livro é repleto de camadas e sutilezas que exigem cuidado, e que, quando analisadas, revelam tesouros. Apesar de ir fundo em vários assuntos (como a procura de significado para a vida, o papel da arte e moralidade) o livro é muito divertido e fácil de ler, o que ajuda. É como uma palestra, ou uma roda de discussão entre filósofos, só que na voz de um monstro.

O estilo de Gardner ajuda bastante também; é bom ler de vez em quando algo que é BEM escrito, e perceber o peso e valor de cada frase.



Stoner, de John Williams



Um dos livros mais deprimentes que eu já li, mas não tanto quanto eu esperava, de acordo com reviews que li por aí. O livro conta a história de William Stoner, que começa com a sua vida na fazenda dos pais (um negócio oco e silencioso que lembra Vidas Secas), sua ida para a faculdade, o noivado mais errado da história da Literatura... enfim, sua vida, repleta de sofrimento, decepções, e uma e outra alegria aqui e ali só para fazer sombra nos pontos mais escuros. A vida de Stoner parece comum, sem grandes acontecimentos, tediosa. No subsolo, no entanto, ele nunca tem paz, sendo atacado por todos os lados e se defendendo como pode. 



Catch 22 (Ardil 22), de Joseph Heller



Este é provavelmente o livro mais absurdo que eu já li. Não, sério, é genialmente absurdo ao ponto de eu ter que parar a leitura de vez em quando para tomar fôlego. Nesses momentos eu chegava a me perguntar “Como isso é possível?”. Catch-22 é daqueles livros que são tão geniais que nos perguntamos se eles foram realmente escritos.
Yossarian é um soldado americano estacionado na ilha de Pianosa com vários outros. Ele é piloto e tem que voar um determinado número de missões para poder voltar para casa. O problema é que seu superior, Coronel Cathcart, constantemente aumentar o número de missões necessárias, de modo que Yossarian começa a ver que ele nunca conseguirá se livrar da guerra. Aí ele começa a elaborar os mais absurdos métodos para escapar, planos que vão envolver praticamente todos os demais personagens do livro.
Mas Yossarian não é o único personagem de interesse. Na verdade, o elenco de tipos absurdo que Joseph Heller criou são o grande trunfo da obra. São muitos personagens (ao ponto de o leitor se confundir com frequência), e várias histórias entrelaçadas, todas tendo em comum o absurdo; a forma do autor criticar aquele outro absurdo, da Guerra. A narração é não-cronológica e cada capítulo foca um personagem, o que atrapalha um pouco a leitura, mas nada de outro mundo.
Foi o livro mais hilário que eu já li, mas é cheio de partes sombrias, já que o autor claramente denuncia o absurdo da Guerra, narrando o esforço dos personagens em manter a sanidade no meio do absurdo. E ele até responde como isso pode ser feito. Foi também o livro que mais me fez chorar. É outro que merece ser relido várias vezes.



A Confederacy of Dunces (Uma Confraria de Tolos), de John Kennedy Toole



Depois de Catch 22, é o livro mais insano que já li. Narra a odisseia de Ignatius Reilly, um cara extremamente inteligente e igualmente sedentário que vive às custas da mãe, e que é forçado a procurar um emprego depois que ela se cansa das muitas idiossincrasias do filho. Ignatius é um homem medieval, leitor de São Tomás de Aquino e Boécio, e vê nos acontecimentos que o afligem durante o livro as terríveis reviravoltas da Fortuna.

Através de tipos bizarros que se cruzam das mais variadas formas, o autor consegue pintar um quadro bastante interessante de New Orleans e criticar tudo e todos. Os primeiros capítulos parecem revelar nada além de um grande caos que até torna a leitura difícil. Eventualmente, no entanto, as relações entre os personagens vão se revelando, e aos poucos o leitor percebe que tudo está muito bem conectado.

O grande trunfo do livro, no entanto, é realmente o personagem principal, que apesar do seu enorme egoísmo e ilusão de grandeza é extremamente carismático. Poucos personagens conseguem tirar tantas risadas do leitor como ele.



Battle Royale, de Koushun Takami



“Esse livro? Sério?”, alguém pode dizer. Apesar dos seus defeitos, muitos dos quais podem ou não ser decorrentes da tradução, Battle Royale é extremamente cativante.
Trata-se da história de uma turma de ensino fundamental que é sequestrada, levada para uma ilha e forçada a participar de um jogo sádico: cada estudante recebe um kit de sobrevivência que contém uma arma (desde tacos de baseball até metralhadoras) e são informados que terão que se matar uns aos outros, já que só um poderá sair da ilha.
A partir dessa premissa bizarra e mal elaborada o autor consegue prender o leitor pelas mais de 600 páginas. É um thriller intenso, focado nos personagens, na maioria bem desenvolvidos; claro que, com mais de 40 personagens, fica difícil dar profundidade suficiente a todos, mas o autor fez o melhor que pode e alcançou sucesso: você começa a se importar com o destino dos adolescentes e fica com um aperto no coração com o fim da história.



The Napoleon of Notting Hill (O Napoleão de Notting Hill), de G. K. Chesterton



Até pensei em colocar The Man Who Was Thursday aqui, já que é mais famoso e, convenhamos, mais interessante. Mas The Napoleon of Notting Hill teve mais impacto em mim, já que a mensagem dele é o que eu precisava.
No futuro (que seria nosso passado, 1984) a monarquia se tornou uma loteria, e o sorteado da vez é o brincalhão Auberon Quin, que como primeira ação como rei decide transformar cada bairro de Londres em uma cidade, com muros, portões, bandeiras, exércitos... essa é a idéia que ele tem de diversão. Os cidadãos são obrigados a viver de acordo com o embuste, que toleram. Um deles, no entanto (Adam Wayne), que era criança quando tudo aconteceu, leva tudo a sério. A partir desse começo absurdo a história avança, e é impossível não gostar cada vez mais de Wayne.
Entre outras coisas, o livro é um elogio do espírito romântico que, segundo Chesterton, é natural do Cristianismo: coragem, um amor tão grande pela vida que não tem medo da morte.



The Neverending Story (A História sem Fim), de Michael Ende



Levei uns seis meses para ler esse livro. Não que ele seja longo ( a edição brasileira tem menos que 400 páginas), mas MUITA coisa acontece, coisas surpreendentes para um livro infantil. Eu esperava algo parecido com o filme, e me deparei não apenas com algo bem diferente, mas também mais longo (a história do filme termina antes da metade do livro).
A história é bem conhecida graças ao filme: um menino (Bastian Balthasar Bux, que no livro é gordinho) acaba roubando um livro muito especial de uma livraria, mata aula para lê-lo, e acaba descobrindo o mundo de Fantasia, que está sendo ameaçado pelo “Nada”, que está consumindo o mundo, um pedaço de cada vez. A Imperatriz-Criança manda o jovem Atreyu em busca de uma solução para o problema, e o presenteia com Auryn, o talismã que o declara representante da Imperatriz. Aos poucos, Bastian vai descobrindo que a história tem muito mais a ver com ele do que ele imagina.
Michael Ende várias vezes toca em assuntos difíceis para crianças (e que são pequenos presentes para os adolescentes e adultos lendo a história) e encheu o livro de pequenos detalhes, como o fato de cada capítulo começar com uma letra diferente do alfabeto. Tem gente que lê o livro (escrito nos anos 1970) como uma analogia da condição alemã durante a Guerra Fria, mas prefiro pensar que Ende simplesmente respeitava a inteligência de seus leitores e tratou o único problema que interessa: o ser humano.



Space Trilogy (Out of the Silent Planet, Perelandra, That Hideous Strength)

Trilogia Espacial (Além do Planeta Silencioso, Perelandra, Aquela Força Medonha), de C. S. Lewis



Tá, são três livro, mas todos conectados. Num momento em que as livrarias estão lotadas de trilogias e “sagas” (a dor que dá quando filisteus usam essa palavra errado...) é bom olhar para o passado, para um dos melhores escritores que o mundo já teve no passado recente, e encontrar tesouros como esse.
Lewis é um dos meus escritores favoritos, e boa parte desse meu interesse é o fato de ele ser cristão e conseguir sê-lo sem o suicídio intelectual ao qual quase me obrigaram durante a minha adolescência. E esses três livros são, também, profundamente cristãos, embora isso só fique evidente nos dois últimos livros. Os três livros contam a história de Elwin Ransom (o nome não é por acaso), um filologista que, de férias no interior da Inglaterra, acaba se envolvendo, contra a sua vontade, com um experimento espacial que o levará a Malacandra, o planeta que nós conhecemos como Marte. A partir daí não posso falar mais, com risco de spoilers.
O que eu posso dizer, no entanto, é que Lewis usa a história (interessante e suficiente por si só) para exercitar sua teologia experimental, baseada no “e se...?” ao qual muitas vezes os voltamos. “E se houver vida em outros planetas?”, “e se Deus se revelou a essas formas de vida de outra maneira?”, “e se entrarmos em contato com eles, devemos dar as boas novas?”, entre outras perguntas. Claro, como estamos falando de C. S. Lewis, encontramos referências diversas à filosofia, ciência, mitologia, literatura... mesmo para quem não é cristão, os livros são uma boa pedida.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A Longas Eras de Arda

O Senhor dos Anéis não foi a primeira história escrita por J. R. R. Tolkien a se passar na Terra-Média. A maioria dos leitores conhece também O Hobbit, que narra as primeiras aventuras de Bilbo, tio de Frodo, e Gandalf, além dos anões comandados por Thorin Escudo-de-Carvalho. Mas além dO Hobbit houveram trabalhos anteriores que não foram publicados: esses textos diversos cumprem a função colossal de explicar os acontecimentos das Primeira e Segunda Eras, e ainda do que aconteceu antes.

 
Primeiras edições dO Senhor dos Anéis, com design feito pelo próprio Tolkien

O leitor que conhece apenas O Senhor dos Anéis pode estar um pouco confuso, então uma explicação é necessária: Os eventos dO Hobbit e dO Senhor dos Anéis acontecem durante a Terceira Era de Arda/Terra-Média. Antes disso houveram outras duas Eras: a primeira, envolvendo o início de tudo, com a saída e consequente retorno dos Elfos para a Terra Média, o surgimento dos homens e o combate contra Morgoth, de quem Sauron era apenas um servo. Após a queda de Morgoth há a fundação de Númenor, a ilha na qual viveram os ancestrais de Aragorn, assim como sua queda, perpetrada pelas maquinações de Sauron, o que ocorre na Segunda Era. Não me proponho a explicar os acontecimentos desses períodos, mas indico o que ler a quem estiver interessado, ainda nesse texto.

O Senhor dos Anéis contém, em seu terceiro volume (O Retorno do Rei, para quem não tem a versão única), um volumoso glossário explicando os eventos anteriores ao Senhor dos Anéis. Sua leitura não é necessária para compreender os eventos do livro, mas é um deleite para aqueles que se apaixonaram pela Terra-Média. Ainda assim, esse apêndice foi considerado insuficiente para explicar muita coisa, principalmente por expôr novas questões que Tolkien não se propôs a responder, ou não teve tempo de fazê-lo.

Entenda-se, Tolkien estava envolvido no trabalho de criação/construção da história de Arda desde muito cedo; parte de seus manuscritos data do seu período no exército, ainda durante a Primeira Grande Guerra. Ao longo da vida ele teve que harmozinar o trabalho acadêmico com a elaboração das narrativas que povoariam seu mundo fantástico. Centenas de páginas escritas, mais ou menos elaboradas, em prosa, poesia e mesmo em textos de caráter descritivo, tocando temas como geografia, história e filosofia. O amontoado homérico nunca foi editado por Tolkien, talvez porque ele ainda não considerasse a história devidamente terminada, e estava inseguro quanto a publicar histórias que ainda poderiam ser polidas ou alteradas. Morreu, em 1973, deixando duas Eras para serem explicadas.

Quem tomou a responsabilidade de publicar os trabalhos do pai foi seu filho, Christopher Tolkien, hoje com mais de 80 anos. O primeiro trabalho que editou e publicou foi O Silmarillion, em 1977, que narra acontecimentos anteriores à criação do mundo, indo até eventos posteriores à Terceira Era (isso é, posteriores aO Senhor dos Anéis). O nome do livro vem das Silmarils, pedras preciosas forjadas pelo maior atífice élfico dos dias antigos, Feänor, lider dos Noldor, pedras essas que foram roubados por Morgoth, o que levou a uma guerra de séculos entre elfos (e mais tarde homens) e o Senhor do Escuro. O livro reúne textos que Tolkien começou a escrever em 1925, até próximo de seus últimos dias, mas que tiveram que ser editados pelo filho, pois muitas partes se encontravam em estado pouco acabado. Christopher Tolkien, no entanto, tentou manter a interferência a um mínimo, apenas para auxiliar a compreensão do texto e mantê-lo de acordo com o que o público já conhecia em trabalhos anteriormente publicados.

Uma Silmaril: tesouro de valor inestimável tanto para os Noldor como para Morgoth

Em 1980 foram publicados os Contos Inacabados de Númenor e da Terra-Média, mais uma vez um livro composto pela união de textos incompletos deixados por Tolkien, mas dessa vez houveram várias diferenças. Enquanto O Silmarillion estava mais bem acabado e já existia, embora incompleto e precisando de edição, os Contos Inacabados são uma aglomeração de textos de estilos diferentes e sob temas diversos, que exigiram maior empenho editorial e contam com diversas notas, tanto aquelas deixadas por Tolkien como pelo editor (novamente, Christopher). As histórias do livro englobam, assim como O Silmarillion, as três Eras, explicando temas tão díspares como a geografia de Númenor e a organização do exército de Rohan. É certamente um trabalho para curiosos e amantes da obra de Tolkien, mas de modo algum necessário para qualquer um que gostou dO Senhor dos Anéis.

O Vala Ulmo se revela a Tuor

Por fim, houve a públicação dOs Filhos de Húrin, em 2007. Ao contrário dos trabalhos anteriores, de caráter mais ou menos enciclopédico, o livro é realmente uma narrativa, portanto bem mais próximo dos livros que Tolkien publicou em vida e mais atraente para o público geral. A história se passa da primeira era do mundo, durante a guerra entre Elfos e Morgoth, na qual os humanos (recém-chegados) acabam se envolvendo, em ambos os lados. Nesse mundo duro nasce Túrin, Filho de Húrin, grande guerreiro e amigo dos elfos. Capturado em batalha, Húrin desafia Morgoth, que o amaldiçoa e a toda sua família; a história acompanha seus filhos, Túrin e Niënor, da infância até o fim trágico, vivendo sob a constante sombra da maldição do Senhor do Escuro. É a história mais sombria e pesada escrita por Tolkien. Os primeiros rascunhos datam de 1914, tendo sido portanto iniciados muito antes dO Senhor dos Anéis, e durante os anos de elaboração foram escritos tanto em prosa como em poesia aliterada. A história, considerada por Tolkien uma das mais importantes de toda sua obra, já havia sido contada nO Silmarillion e nOs contos Inacabados, além de citada rapidamente nO Senhor dos Anéis, mas sem a grande quantidade de detalhes presentes agora. As ilustrações de Allan Lee complementam o texto bem acabado e trágico da vida dos filhos de Húrin.

Túrin assiste impotente ao saque de Nargothrond perpetrado pelo dragão de Morgoth, Glaurung

Esses não são, no entanto, todos os trabalhos publicados por Christopher Tolkien: existem também os doze volumes de The History of Middle-Earth, mas essa enciclopédia não é tão atrativa para leitores médios como as obras anteriormente citadas, sendo de maior interesse para os estudiosos e especialistas que se debruçam sobre a obra de Tolkien e estudam Arda com avidez. Outros livros que tratam mais de Tolkien do que de Arda, como suas cartas, também existem. Além disso tudo, ainda sabe-se da existência de mais material relacionado à Terra-Média que Tolkien deixou, e que poderá ser eventualmente publicado, mas não se sabe quando.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Hispanidade e Bioy Casares

Don Quixote, de Gustave Doré: Livro de Cervantes é o maior representante da 
Literatura de Língua Espanhola de todos os tempos

Hispanidade, segundo a Wikipedia, “é a comunidade dada forma por todos os povos e as nações que compartilham da língua e da cultura espanholas”; a data de comemoração da Hispanidade é dia 12 (ou seja, hoje). Nós, falantes da Língua Portuguesa, temos que dar o braço a torcer para aqueles que dizem que a Literatura de Língua Espanhola é mais relevante que a nossa: ela realmente é. Mesmo nomes grandes da nossa Literatura, como Camões e Fernando Pessoa, são (infelizmente) realmente conhecidos apenas nos países falantes do Português. Já Cervantes, García Marquez e Borges são lidos no mundo todo.

Não vou propor aqui teorias para explicar esse fato, e nem sei se é relevante discuti-lo, ao menos não hoje. Prefiro compartilhar um pouco dessa literatura com os (poucos) leitores do blog. Trata-se de um escritor argentino que, ainda que não conste entre os grandes clássicos, escreveu livros instigantes e de um tipo que não costumamos encontrar na Literatura latino-americana: fantasia, ficção-científica e policial. Trata-se de Adolfo Bioy Casares. Ainda me valendo da Wikipedia, a “narrativa de Adolfo Bioy Casares criou um mundo de ambientes fantásticos regidos por uma lógica peculiar e marcados por um realismo de grande verossimilhança”. Foi ainda amigo de Borges e chegou a escrever bastante com ele – seu nome consta, aliás, em alguns de seus contos (de Borges), como personagem.


Um de seus livros mais famosos, talvez o mais interessante, seja La invención de Morel, que conta a história de um homem que foge para uma ilha dita deserta, na qual ele mais tarde encontra aparições que sugerem fantasmas e acontecimentos que testam sua sanidade. Trata-se, segundo Borges, de um livro “perfeito”, no sentido que cumpre exatamente o que se propôe a fazer: causar o assombro do leitor.

Vários dos seus livros já foram publicados no Brasil, e são uma ótima pedida para quem se interessa pelo gênero, quando é bem executado, e especialmente por contos. Além disso, quem sente um certo vazio depois de ter lido tudo que há de Borges pode encontrar ainda um pouco do sentimento perdido nos livros de Bioy; no entanto, esse não é o único motivo para se ler seus livros, já que eles tem méritos próprios e são merecedores de atenção por suas próprias qualidades.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A Terrível Língua Alemã

 Como é do conhecimento de alguns de vocês, tenho me dedicado nos últimos meses ao estudo da Língua Alemã, e posso dizer, sem sombra de dúvidas, que é uma das coisas mais difíceis que já estudei. Acostumado com a gramática simples e intuitiva do Inglês, tive muita dificuldade para me adaptar às exigências por vezes absurdas da língua, sem falar na falta de regras e estruturação das frases quase alienígena. Continuo porque, apesar de bastante complicada, a língua é linda e apaixonante, assim como o são a Literatura e a música alemãs, sua história, suas lendas, arquitetura... enfim, conhecer a língua é parte da apreciação da Deutsche Kultur

 Claro, a vontade de ler Werther em alemão.


Quase que por acaso, a alguns meses, me deparei com um texto de Mark Twain sobre a Língua Alemã, e me senti aliviado em saber que mesmo um dos grandes gênios da Literatura de todos os tempos teve trabalho para aprendê-la. Deixo o texto abaixo para que quem quiser possa ter uma idéia dos desafios (e da grande beleza) que acompanham o aprendizado do alemão:

The Awful German Language

A little learning makes the whole world kin.
-- Proverbs xxxii, 7.

I went often to look at the collection of curiosities in Heidelberg Castle, and one day I surprised the keeper of it with my German. I spoke entirely in that language. He was greatly interested; and after I had talked a while he said my German was very rare, possibly a "unique"; and wanted to add it to his museum.

If he had known what it had cost me to acquire my art, he would also have known that it would break any collector to buy it. Harris and I had been hard at work on our German during several weeks at that time, and although we had made good progress, it had been accomplished under great difficulty and annoyance, for three of our teachers had died in the mean time. A person who has not studied German can form no idea of what a perplexing language it is.

Surely there is not another language that is so slipshod and systemless, and so slippery and elusive to the grasp. One is washed about in it, hither and thither, in the most helpless way; and when at last he thinks he has captured a rule which offers firm ground to take a rest on amid the general rage and turmoil of the ten parts of speech, he turns over the page and reads, "Let the pupil make careful note of the following exceptions." He runs his eye down and finds that there are more exceptions to the rule than instances of it. So overboard he goes again, to hunt for another Ararat and find another quicksand. Such has been, and continues to be, my experience. Every time I think I have got one of these four confusing "cases" where I am master of it, a seemingly insignificant preposition intrudes itself into my sentence, clothed with an awful and unsuspected power, and crumbles the ground from under me. For instance, my book inquires after a certain bird -- (it is always inquiring after things which are of no sort of consequence to anybody): "Where is the bird?" Now the answer to this question -- according to the book -- is that the bird is waiting in the blacksmith shop on account of the rain. Of course no bird would do that, but then you must stick to the book. Very well, I begin to cipher out the German for that answer. I begin at the wrong end, necessarily, for that is the German idea. I say to myself, "Regen (rain) is masculine -- or maybe it is feminine -- or possibly neuter -- it is too much trouble to look now. Therefore, it is either der (the) Regen, or die (the) Regen, or das (the) Regen, according to which gender it may turn out to be when I look. In the interest of science, I will cipher it out on the hypothesis that it is masculine. Very well -- then the rain is der Regen, if it is simply in the quiescent state of being mentioned, without enlargement or discussion -- Nominative case; but if this rain is lying around, in a kind of a general way on the ground, it is then definitely located, it is doing something -- that is, resting (which is one of the German grammar's ideas of doing something), and this throws the rain into the Dative case, and makes it dem Regen. However, this rain is not resting, but is doing something actively, -- it is falling -- to interfere with the bird, likely -- and this indicates movement, which has the effect of sliding it into the Accusative case and changing dem Regen into den Regen." Having completed the grammatical horoscope of this matter, I answer up confidently and state in German that the bird is staying in the blacksmith shop "wegen (on account of) den Regen." Then the teacher lets me softly down with the remark that whenever the word "wegen" drops into a sentence, it always throws that subject into the Genitive case, regardless of consequences -- and that therefore this bird stayed in the blacksmith shop "wegen des Regens."

N. B. -- I was informed, later, by a higher authority, that there was an "exception" which permits one to say "wegen den Regen" in certain peculiar and complex circumstances, but that this exception is not extended to anything but rain.

Leia o resto aqui.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Literatura enquanto Arte da Falha

A literatura é a arte da falha. Claro, muitos outros títulos e metáforas podem ser usados para definir uma das mais amplas e presentes formas de arte, mas nunca ouvi ninguém tratá-la como " arte da falha", e por isso insisto nisso. O sucesso, o correto andamento das coisas, a normalidade, nada disso deve importar ao escritor ou ao leitor. Não interessa que Romeu e Julieta vivam felizes para sempre, que Joseph K. encerre o Processo ou que Montresor convença Usher a sair de férias. Não, na literatura apenas o anormal interessa, e esse anormal não está nunca no espectro positivo, não será nunca (ou quase nunca) o grande sucesso, a grande felicidade. O escritor parte de um problema, parte da falha - e muitas vezes não sai dela, ou o faz, apenas para voltar mais tarde. Ele é um estudioso do fracasso, do erro, enfim, da matéria do mundo, mas não estudo o porquê da vida ser assim, mas o porquê da vida não ser de outra forma.

Imagino que concordarão comigo que o escritor tem fascinação com a lenta e calculada destruição de seus personagens, mas discordarão quanto à necessidade do leitor de vislumbrar o mal do mundo na literatura. Dirão que o leitor quer um final feliz. E eu direi que, se ele quer, que tenha um final feliz, mas não na arte. Best sellers estão disponíveis justamente para oferecer aquilo que o leitor quer; eles são feitos para agradar. O artista de verdade não busca amigos: ele quer ofender, maltratar, enfiar todos os dedos nas feridas, nas próprias e nas dos leitores. O verdadeiro leitor busca o mesmo: quer se ver nos personagens, despido, humilhado, analisado, explicado. A literatura tem o poder de nos dizer quem somos, ainda que através da arte do embuste. Entendam, nada tenho contra a cartase, mas que ela exista como redenção consequente da revelação, não como exigência comercial. Que o artista coloque um sorriso na boca do leitor, mas que também molhe seu rosto com lágrimas...

Talvez como reflexo dessa atividade, talvez como mera coincidência, o autor em si costuma ser falho, no sentido que nós mesmos usamos... Borges viveu com a mãe não até a maturidade, mas até a velhice, e muitos crêem que ele jamais alcançou a maturidade. Poe, assim como Dostoiévsky, viveu em probreza e dificuldades, vítima dos seus próprios descontroles. Kafka, por mais que tentasse, não conseguiu fugir da sombra do pai terrível e de seus próprios problemas. A lista continua, e é certo que os grandes não foram tão grandes em suas vidas pessoais como o foram em suas obras. Ou o foram mas, sob o ponto de vista da sociedade atual (que não muda muito com o tempo), foram homens falhos. Me dirão: Shakespeare! García Marques! E eu concordarei que esses homens foram reconhecidos em seu próprio tempo e aproveitaram a glória de sua arte. Mas, notem que, ainda assim, seus personagens sofrem. O público do teatro Elizabetano exige que Hamlet complete sua vingança, mas Shakespeare não pode permitir que ele viva para comemorar. A tragédia! Que esses autores sejam excessão, que se deliciem com vitórias; seus personagens, não.

Então, no esforço de aceitar essas mal arrumadas linhas sem nenhum argumento pétreo, me perguntam:Por quê? Direi: Não sei. Mas creio que a falha é algo profundo, ancestral e arquetípico. Quem, afinal, não se sente, com variada frequência, um fracasso?

Ophelia, de Hamlet

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Criação (Filme)

O filme Creation, que conta a história da criação do livro A Origem das Espécies, de Charles Darwin, pode ser encontra no youtube, completo e legendado neste link. O filme, na verdade, se centra nos conflitos que acompanharam Darwin durante os anos de elaboração do livro. Excelente produção, ótimas atuações e informação salpicada de fantasia, o que não é de forma alguma um demérito.

Darwin (Paul Bettany) e sua esposa Emma (Jennifer Connelly)