Daí a inquietação que eles despertam naqueles que, por qualquer motivo, desejam nos manter totalmente presos ao conflito imediato. Talvez seja por isso que as pessoas usem tão prontamente a acusação de "fuga". Eu nunca entendi isso completamente até que meu amigo, o professor Tolkien, fez-me a pergunta muito simples: "Que classe de homens você esperaria estar mais preocupada com e hostil à idéia de fuga?" A resposta era óbvia: carcereiros.
domingo, 26 de abril de 2020
quarta-feira, 2 de janeiro de 2019
Os livros de 2018
Neste ano que se encerrou consegui a façanha de ler 33 livros. Nada mal. Teriam sido pelo menos 40, não tivesse eu descoberto o vício chamado Team Fortress 2, mas não tenho do que reclamar. Li muita coisa boa, mas o que mais apreciei foram as releituras. Sem muito a dizer, aqui vão os meus preferidos de 2018, sem ordem definida. Quem me dera poder indicar 10, mas a seara esse ano foi fraca, tendo eu que me contentar em ler muita literatura brasileira por causa do trabalho. Não que literatura brasileira seja ruim, mas o que há de bom não costuma ser devidamente valorizado pela nossa intelligentsia atrofiada e corrupta.
domingo, 18 de fevereiro de 2018
The Little Book of Hygge (resenha)
"Hygge" (pronuncia-se
"ruga", ou quase isso) é um conceito dinamarquês de difícil tradução,
mas que se relaciona a conforto, segurança, e o hedonismo epicúreo dos prazeres
da vida simples na companhia dos bons amigos. Embora isso possa ser alcançado
em qualquer lugar do mundo, os dinamarqueses elevam a ideia ao nível de arte e
estilo de vida, o que inclui seus fetiches específicos (velas e iluminação
leve, livros, cores amenas, janelas e lareiras, etc.). Hygge é, segundo o
autor, um dos motivos de os dinamarqueses serem considerados, ano após ano, as
pessoas mais felizes do mundo.
O livro, que é de fato pequeno (mas muito bonito) explica passo a passo o que é Hygge e como recriá-lo fora da
Dinamarca. Apesar das instruções claras, o brasileiro encontrará grandes
dificuldades: quase tudo foi pensado para o clima frio e escuro da
Escandinávia, e é impossível no Brasil. Quem aqui no verão (ou mesmo no
inverno!) colocaria meias e um suéter, sentando-se ao lado de uma lareira vendo
a neve cair pela janela de seu Hyggekrog? O conceito foi pensado para amenizar
o clima de frio quase constante da Escandinávia, mas o nosso problema é outro:
o calor extremo. Por isso fica a sugestão: tente traduzir a
ideia para a sucursal do inferno que é o verão brasileiro.
Outra dificuldade do livro é
financeira: os dinamarqueses recebem bons salários, e mesmo os desempregados
tem o estado do bem-estar social para ampará-los, de modo que o Hygge se torna
alcançável para eles: quase como feng-shui existe toda uma combinação de
fatores, arquitetônicos e decorativos, pensados para maximizar o Hygge. Embora
o autor dê boas sugestões de como alcançar o Hygge com pouco dinheiro, e
inclusive afirme que o fator monetário é irrelevante, duvido que o resultado
seja realmente tão agradável quanto o esperado. Pode-se dizer que Hygge é,
essencialmente, uma coisa da classe média, que é grande nos países nórdicos,
mas cada vez menor no Brasil.
Apesar dos problemas fica a
sugestão de um bom livro com ótimas ideias. As fotos em especial são muito bonitas,
de modo que este é um ótimo coffee table book para se folhear de vez em quando
e buscar ideias bacanas para tornar nossas vidas mais agradáveis.
sexta-feira, 5 de janeiro de 2018
Carta aos jovens sobre a utilidade da literatura pagã (Resenha)
Não conhecia são Basílio, então este pequeno livro foi uma baita descoberta. Ele foi um defensor infatigável da ortodoxia cristã, em especial contra os arianos, e um professor amado por todos, e que continua nos ensinando através dos séculos.A edição primorosa da Ecclesiae de bolso contém uma boa introdução, com vários textos (incluindo dois do papa emérito) e, além da excelente carta de orientação aos jovens quanto à litertaura pagã, ainda duas homilias: uma sobre o desapego às coisas terrenas e outra sobre a humildade, sendo que ambas as homilias estão intimamente ligadas ao conteúdo da carta, servindo de complemento e expansão a alguns temas que ele aborda, na carta, apenas de passagem.
"O que Atenas tem a ver com Jerusalém?", questão proposta por Tertuliano ainda nos primeiros anos da Igreja cristã, é na carta respondida pelo santo, que mostra que a leitura dos clássicos gregos e latinos, desde que realizada com discernimento, pode ser uma grande ferramenta para o crescimento espiritual do cristão e da Igreja.
segunda-feira, 1 de janeiro de 2018
A ninfa inconstante (resenha)
.
Minha impressão inicial foi
desagradável: prosa forçada, com aparente erudição pretensiosa, trocadilhos
irritantes e diálogos nem um pouco convincentes. Mas foi bom ter continuado,
pois o livro realmente melhora, apesar de continuar do mesmo jeito do começo ao
fim: é que o autor consegue juntar tudo muito bem e criar algo realmente
especial.
Para simplificar dá pra dizer que
o livro é Lolita passado no Caribe, mais especificamente na Havana
pré-revolucionária, com tudo que ela tinha de bom (e ruim). Aliás, Cabrera
Infante faz nesse livro um esforço memorialista muito grande, e ele é uma ode a
Havana antes de ser uma ode a Estela. Para quem se interesse pela vida dos
nossos hermanos da ilha, a obra é uma boa pedida. Quanto à semelhança com o
livro do Nabokov, ela está mais na aparência (homem de letras que se envolve
com uma moça mais jovem) do que no desenvolvimento, já que a relação é bem
menos problemática do ponto de vista legal e moral: com 16 anos Stella já é
maior de idade segundo a lei da ilha, pelo menos à época. Logo, a obra é bem
menos escandalosa, mas tem lá sua problemática com relação a esse
relacionamento, que não tem nada de amor e bem pouco de desejo, mostrando duas
pessoas problemáticas se arrastando por um mundo ainda mais problemático.
O livro é relativamente curto,
além de ser uma leitura que não exige muito esforço, gostos de ler e devorado
com facilidade, o que é bom, em especial levando em conta que o autor busca (e
consegue) oferecer literatura de verdade. É um dos melhores livros que já li?
Não, mas não me arrependo da leitura, e ainda a recomendo, em especial como uma
leitura mais leve entre outras mais exigentes, ou um interlúdio entre leituras
de não-ficção. Não conheço o resto da obra do homem, mas o livro me interessou
suficientemente para buscar conhecer mais dos seus escritos.
sexta-feira, 29 de dezembro de 2017
Livros: os favoritos de 2017
Este ano que está quase acabando foi atípico: tive que dar
aulas de Língua Portuguesa e Literatura para turmas do Ensino Médio (o que até então não fizera) e por isso tive
que me atualizar, lendo e relendo muita literatura brasileira, deixando de lado
Filosofia, Teologia e Política, além de alguns preconceitos. Foi um ano
produtivo, de descobertas e surpresas, e apesar da falta de tempo, consegui ler
bastante, embora apenas uma pequena parcela dos livros tenha se destacado. Decidi fazer
uma lista dos favoritos, e aí estão:
A profundidade dos sexos, de Fabrice Hadjadj
Fabrice Hadjadj é uma figurinha estranha: francês de
nascimento, judeu pelo sangue, com nome árabe, e católico em um meio cada vez
mais anti-cristão; era de se esperar que sua obra fosse tão cosmopolita quanto
ele, misturando referências numa salada agradável, mas desafiadora aos
paladares menos aventureiros.
O livro busca investigar o sexo em seus diferentes aspectos
de forma inovadora: a relação mística entre carne e espírito no que se refere
às diferenças entre os sexos e na comunhão entre os mesmos. Num mundo onde
características essenciais do sexo são negadas (sua fertilidade, sua dualidade,
seus riscos, mistérios e deslumbramentos) e recebemos respostas simplistas de
materialistas e ideólogos (quase todos à esquerda), a o livro é muito bem
vindo.
A intenção do autor não é ofender, mas fica claro que, num mundo onde desvios das normas sociais impostas pelo complexo academia-governo-mídia são vistos como crimes terríveis, mesmo as críticas sutis do livro a certas tendências em nossa sociedade podem ofender certos grupos (LGBT, pró-aborto, hedonistas, e obviamente os anti-religiosos ou anti-católicos). Portanto, se você pertence a algum desses grupos, prepare-se para uma leitura cativamente e desafiadora, mas possivelmente desconcertante e desconfortável.
A falha do livro, se é que se pode usar o termo, reside
justamente em algo que o autor não se propôs a fazer: explorar com real
profundidade a questão da carne no seu aspecto místico de acordo com a
ortodoxia. O autor aponta para essa necessidade, mas se reconhece incapaz de
saná-la. Teremos que esperar por alguém mais capaz para nos aprofundarmos na
questão, já que o livro se aproxima de um ensaio, embora tenha suas 250
páginas.
Por fim, tem-se uma certa dificuldade com a tradução: o
autor usa e abusa de trocadilhos intraduzíveis e de uma ironia que funciona bem
no francês, mas é simplesmente confusa em outras línguas. Ainda assim, o estilo
é agradável e a leitura, apesar de passar por grandes e complexos luminares do
pensamento ocidental, de Platão a Heidegger, é ainda assim prazerosa e
acessível.
Sagarana, de João Guimarães Rosa
Neste ano coloquei minhas leituras de Literatura brasileira
em ordem, e finalmente conheci a obra de Guimarães Rosa. Não sabia realmente o que esperar e me
surpreendi agradavelmente.
Guimarães Rosa a princípio parece ser mais um regionalista
na linha de autores um pouco anteriores (Graciliano Ramos, Rachel de Queirós,
Jorge Amado), mas depois de poucas páginas já se começa a perceber o primoroso
trato que ele tem com a palavra: ele mascara, revela, eleva, renova e expande a
palavra de forma surpreendente, recorrendo a arcaísmos, neologismos e ao uso
criativo do léxico sertanejo e sertanejo-inventado, de modo desnorteante e
elucidador. Até então não tinha me deparado com uma exploração tão profunda do
vocabulário em uma obra de arte (Joyce à parte). Isso, claro, pode tornar a
leitura um esforço, mas daqueles que valem à pena.
Outro ponto interessante desse livro de contos e novelas é a
exploração da relação do homem com o mistério da existência, não apenas dele
próprio mas também da complexa relação entre bem e mal na alma humana e não
experiência de vida. O livro tem um aprofundamento filosófico e mesmo místico
que com certeza escapa ao entendimento da maioria dos jovens que estão lendo o
livro para os vestibulares da Fuvest e da Unicamp, mas que é um tempero
especial para quem se interessa pelas tradições esotéricas de todas as
religiões.
No mais, o livro é, sim, uma leitura agradável. Além do
aprumo da forma e da temática, Guimarães Rosa é um excelente prosador, um
contador de histórias de primeira, e com certeza um artista que merecia
reconhecimento internacional e um posicionamento de destaque entre os grandes
escritores mundiais, e possivelmente o de melhor desta Terra de Vera Cruz.
Minha Vida de Menina, de Helena Morley
A princípio acreditei que a inclusão do livro no vestibular
da Fuvest fosse um esforço mais ideológico do que derivado do valor intrínseco
da obra. Afinal, é uma obra escrita por uma mulher (o que interessaria à
Academia, com sua tendência feminista cada vez mais militante) e um diário
(escapando das normais exigências das provas, de romance e poesia). Mas que
bela surpresa foi!O livro é, de fato, um diário, escrito por Alice Dayrel Caldeira Brant sob o pseudônimo de Helena Morely, na época que ela era uma menina vivendo em Diamantina no fim do século XIX. Menina espevitada, observadora e com resposta para tudo, seu olhar ilumina as transformações radicais que o Brasil passou no período, com o fim da Escravidão, do Império, e a violenta República das Espadas. É, por isso só, um documento de valor histórico valiosíssimo, ainda se levarmos em conta que o texto foi editado (sem que possamos saber a extensão dessas edições).
A escrita é uma delícia, e a menina é um amor de pessoa. Além disso, encontramos diversas personagens interessantíssimas, com destaque especial para a D. Teodora, avó de Helena e uma pessoa adorável. O mundo é também cruel, e a menina relata episódios de racismo e violência tola, mas aponta também para um mundo mais simples e comunitário, com suas belezas hoje já perdidas, apagadas pelo movimento de atomização do indivíduo e destruição dos laços familiares.
Que saudade que o livro dá de coisas que não tivemos a oportunidade de ter!
A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós
Eça é o Ó. Como outros autores da época, foi influenciado
por todas aquelas tendências rançosas do final do século XIX: ateísmo, positivismo,
cientificismo, anti-clericalismo, socialismo... todos os ismos detestáveis que
ainda nos perturbam. Tudo isso fica claro principalmente na obra que a Fuvest
exige para 2019, A Relíquia, que é uma das leituras mais sofridas que fiz na
minha vida, de um anti-catolicismo datado e cansativo. Por isso mesmo a
inclusão de A Cidade e as Serras nesta lista que faço é relevante.
O livro trata da relação entre as novidades e modas das
grandes cidades (no livro representadas por Paris) e os prazeres simples da
vida no campo (as serras de Portugal). Isso por si só parece uma quebra com o
Realismo, quase sempre urbano, progressista, se contrapondo aos costumes
antiquados e à superstição do modo de vida campestre, onde todos ainda são
religiosos e desconfiados. A explicação vem da época da publicação: a obra é
póstuma, e Eça, no final de sua vida, já estava cansado das modinhas realistas que ajudou a
popularizar e começava a se dar conta de que ele mesmo era, no fundo,
português.
O resultado é um livro que contém uma prazerosa elevação dos
costumes tradicionais, do agrarianismo, da simplicidade, e todos aqueles demais
valores que ainda restavam do Arcadismo já desfalecido. Logo, é uma lufada de
ar fresco sobre esses ranços urbanistas dos séculos passados, que tanto
causaram sofrimento ao arrancar o homem de seu habitat natural e lançá-lo no
concreto, escravo de seus instintos desarraigados e adotados pela sociedade de consumo.
Claro que muita gente não chegará a essas conclusões lendo o
livro, preferindo as platitudes recomendadas pelos professores de cursinho, o
que provavelmente é uma boa ideia para aqueles que querem passar no vestibular.
Mas para quem não sofre mais com essas exigências, fica a oportunidade de
explorar esse lado de Eça que pouco é mencionado, lado esse que quase
exime sua obra, indubitavelmente primorosa, mas manchada por ideologias
caducas.
A idéias conservadoras, de João Pereira Coutinho
Qual a diferença entre um esquerdista e um conservador?
Vinte anos.
A piada acima, que vi pela primeira vez em inglês (onde o
termo que eu traduzi por esquerdista era “liberal”, que tem outro sentido em
português) se baseia no fato de que a marcha da esquerda nunca para, e que
posições que hoje são defendidas pelos conservadores eram, há vinte anos,
bandeiras dos progressistas. Basta comparar as propostas de Donald Trump hoje
com as do governo de Bill Clinton e perceber que eles têm mais em comum do que de
diferente, apesar do desespero da mídia toda vez que o atual presidente diz
algo geralmente inócuo, mas com a delicadeza de um elefante bêbado.
Um remédio contra a degradação aparentemente irreparável dos
ideais da direita pode estar neste livro de João Pereira Coutinho, que retoma os
Conservadorismos (sim, no plural) originais, em especial o de Edmund Burke, lembrando a
direita que o Conservadorismo como escola de pensamento surge em reação à
Revolução Francesa e está obviamente contra toda forma de revolução, inclusive
àquelas propostas pela direita reacionária. O Conservador, segundo Coutinho, é
um cético cuidadoso, até mesmo pessimista, que prefere cuidar do que há de bom
e mudar lentamente, sempre com um pé atrás. Segundo ele, é essa cautela que
falta aos conservadores de hoje, ora traidores que são esquerdistas em tudo
menos nome, ora engessados em costumes do passado que, na verdade, são
estranhos ao conservadorismo. Ou seja, o conservador não deve nem se render à
posição Revolucionária nem à posição Reacionária, sendo antes de tudo um
administrador do possível, navegando os mares da política cuidando que o navio
da civilização não naufrague.
Me convenceu? Não. Embora possa respeitar a posição dos
conservadores, olho à minha volta e vejo pouco a conservar, já que as vitórias
da esquerda foram, de fato, arrasadoras. Me posiciono, sim, com os
Reacionários, e me sinto em melhor companhia com Dávila e Chesterton do que com
Burke e Scruton. Mas vale muito à pena ler esse livro, para que se possa
criticar o conservadorismo sem recorrer a espantalhos, e mesmo verificar que há
muito de válido no pensamento deles.
segunda-feira, 11 de dezembro de 2017
Rebirth
It was a night like many others, when the sky is dark and thick like old
blood. The timeless stars roamed the vast void, now and again clouded by heavy,
doom-laden clouds. It was March, and the president, like Caesar, feared for
knives cloaked in praises and honeyed words.
Alberto Casares had been elected by the people - the poor, prejudiced,
mobish and sacred people - to bring back a forgotten age of greatness, one that
had been rekindled in their imagination by this shaper of words, a former bard
tuned politician turned messiah. He brightened their wretched lives with tales
of heroes and kings of old, great man and women who shared their blood and
soil, who lived still in them.
He talked of the voice in the blood, the thick, dark, sky-like blood of
liberators and tyrants, knights and knaves, saints and whores. To a people used
to hearing about the economy, it sounded like thunder in the
void. He tore the thread, halted the march of History, and put
black boots and golden cloaks back on the streets. Fear and Glory once again prowled
the late vigils of the night, and invaded the dreams of the corrupt and weak.
Alberto Casares was a warrior poet.
But neither warriors nor poets are meant for the throne. They must die
in battle, become martyrs for the cause, and live in Eternity the life that was
denied to them; lest they fade slowly and are consumed by the perpetual
procession of the hours. Casares was no simple-minded prophet, however,
and this settled his doom. He ruled well, kept people fed, got the economy back on track, and looked magnanimous on posters. Straw
mattresses were now filled with the white feathers of swans and covered with
the softest silk. And even though life had never been better, the people were
not content.
Against the backdrop of star-lit vastness, a candle lamp glowed over a stack of
papers. Contracts, executive orders, subpoenas. The unseen world of
bureaucracy, hidden behind the flair, gold, and bone-white smiles. He stared at
them, hunched over them, while he dreamed of kings and set himself up to their
measure, finding himself wanting. Why, he thought, why did it go so wrong?
Down below from the star-gazed stars gazing down lay the city, its many
beds laden with those many bodies and minds, and inside the thick blood,
dreaming of glory promised but never delivered. With a new fire building up
inside they dreamed of kings, yet found they had a president; of swords, yet
carried guns; of dragons, yet worried about Mondays; of God, yet found only
ephemeral flesh.
And between snores they cursed their ruler.
When awake, things went on as usual. Life always goes on as usual. But
how long would this fire be contained?, the president thought. How long will
they still go on about as usual, while the world freezes in conformity? I promised
them fire, he thought, so why can I not deliver the flame and brighten up the
night?
It must be stated that he tried, hard, to make the world what he would
like it to be. He did not read any political treatise, but the old epics, and
sang no song whose words he could understand. He wore a suit, but always over a
hairshirt. He shaved, but not like a bureaucrat, but like a legionnaire. And he
slept, but little, always on the floor, always hungry, always on edge. He
worked at all hours, for even his dreams where his people's. He was the living
ideal he aspired them to look up to. And yet, coals where the fire should be. How to rekindle them?
He gazed at the stars, the same stars that his ancestors gazed upon,
dead like them, but more alive than anyone breathing down below. He read, sang,
and dreamed of kings and emulated them, but had he been thinking like them?
What would they do in a situation such as this? Declare war against an enemy, to
awaken the numbed will of his people? Design and build great projects, walls
and bridges? What about the largest temple in the world, dotted with the
sculptures depicting the great men of ages past?
And as he pondered those things, his mind’s eye was captured by Ulisses.
King, sailor, adventurer, avenger. Old, cruel, beautiful and industrious
Ulisses, sleeping on the floor with goats, working the rig with his men, facing
certain doom with trembling and passion, for he did not value his own life so
muh that he’d risk not living it for the sake of a longer stay on Earth.
And from him and like men Greece flowed.
Alberto Casares looked down to his city. And he looked down on his city.
He thought of the men and women down there. The fire burning in their
hearts, as they slept under silk sheets. Their hearts, hard and wanting, resting
on soft matresses. The ancient skies called out to them, but they shut them out
with well-cared-for roofs.
The fault was not Alberto Casares’s. The fault was Alberto Casares's people’s.
He ruled well, kept people fed, got the economy back on track. The
people joined a golden age of comfort, with its pleasures, with its sins. They grew
as soft as that age, and weak, entitled, spoiled.
He gave them a Golden Age when they needed a Dark Age.
The president understood his failure. He should have been a
simple-minded prophet, an utter fool
even. He should have crashed the economy, made his people starve and sleep on the
hard floor under the endless, timeless, star-like gaze of their ancestors. Then
they would remember.
Had he been a martyr, his people would be better off. So, what about a
million martyrs?, he thought.
Trembling, he reached for the lamp that lit unworthy, dead words. He
raised it to the sky, with a libation, and let it fall and then rise, to cover
himself, his city, the world.
sábado, 14 de outubro de 2017
Baroness in bloom
A fresh silk flower, her scent floundering
-- the fiery sweet fumes of frothing youth --
the saintly whore saunters, on two feet soaring,
our seeing eyes searing, deep lust summoning.
Her white skin, wan -- in my dreams, warm --,
in waves of gold walloing -- our eyes wavering --
does her hale hair a halo make,
or horns for souls hanging, beckoning of Hell...
Barging comes the bedlam, the basting heat
of blue eyes like battalions -- the gaze of bayonets.
Barely barred souls are laid bare,
the surrendered beach beholds the conquering baroness.
-- the fiery sweet fumes of frothing youth --
the saintly whore saunters, on two feet soaring,
our seeing eyes searing, deep lust summoning.
Her white skin, wan -- in my dreams, warm --,
in waves of gold walloing -- our eyes wavering --
does her hale hair a halo make,
or horns for souls hanging, beckoning of Hell...
Barging comes the bedlam, the basting heat
of blue eyes like battalions -- the gaze of bayonets.
Barely barred souls are laid bare,
the surrendered beach beholds the conquering baroness.
terça-feira, 26 de setembro de 2017
The search for love
The vast blue sphere of Earth I walked alone
and saw mankind strewn across the world.
From multitudes of folk, both high and low,
the passioned hearts of man I saw unfurled
And man and women both were wont to love:
in every cranny, under every stone,
did every hand seek after its own glove;
In every heart had love her fitting throne.
But the bridal chamber’s doors were often shut,
for love is rare (though love of love is not)
And grew on the tracks the grass, on it no rut:
The rider never comes, the heart’s distraught.
The truth do see though, to despair do not run:
and know that a loving heart is itself the Sun.
and saw mankind strewn across the world.
From multitudes of folk, both high and low,
the passioned hearts of man I saw unfurled
And man and women both were wont to love:
in every cranny, under every stone,
did every hand seek after its own glove;
In every heart had love her fitting throne.
But the bridal chamber’s doors were often shut,
for love is rare (though love of love is not)
And grew on the tracks the grass, on it no rut:
The rider never comes, the heart’s distraught.
The truth do see though, to despair do not run:
and know that a loving heart is itself the Sun.
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
A lâmina do tempo
Busco-te, mas não nas pontes altas,
sobre rios violentos, rumorosos.
Não quero o leito de lençóis aquosos:
Tu, Ligéia, a ânsia em mim não exaltas.
Busco-te, mas não no gélido fio
da lâmina de aço sobre vermelho.
Não que me falte, p’ra ferir, o brio,
nem me assuste no corpo mais um talho.
Mas é que me incomoda tanto alarde,
nem parece que a empreitada o demande.
Quero tu, que lentamente devoras
não no breve ato, coragem covarde,
que é fuga vil de mal tão grande,
mas na pálida sucessão das horas.
sobre rios violentos, rumorosos.
Não quero o leito de lençóis aquosos:
Tu, Ligéia, a ânsia em mim não exaltas.
Busco-te, mas não no gélido fio
da lâmina de aço sobre vermelho.
Não que me falte, p’ra ferir, o brio,
nem me assuste no corpo mais um talho.
Mas é que me incomoda tanto alarde,
nem parece que a empreitada o demande.
Quero tu, que lentamente devoras
não no breve ato, coragem covarde,
que é fuga vil de mal tão grande,
mas na pálida sucessão das horas.
sexta-feira, 28 de julho de 2017
Ode III
Her arms, her legs, her back
her lips, her ears, her nose
her hair like streams of gold
all I saw, and then I saw her eyes
and then her eyes were all I saw
and all things after that
I saw for the first time
her lips, her ears, her nose
her hair like streams of gold
all I saw, and then I saw her eyes
and then her eyes were all I saw
and all things after that
I saw for the first time
Ode II
I heard in the afternoon the song of birds
they hid in the afternoon, the singing birds
but I knew the color of their feathers
because I heard the color of their songs
they hid in the afternoon, the singing birds
but I knew the color of their feathers
because I heard the color of their songs
sábado, 10 de junho de 2017
sábado, 3 de junho de 2017
Rage
The snakes in me
they twirl
below my heart
knitting with my bowels the fire
that boils my innards
that slithers upwards
That explains the knot in my throat
That explains the blood in my eyes
they twirl
below my heart
knitting with my bowels the fire
that boils my innards
that slithers upwards
That explains the knot in my throat
That explains the blood in my eyes
A feast
The white of her eyes:
the milk of my morning
The black of her iris:
my coffee
When hunger strikes
I take a bite
of the music on her lips
This bread that she is
God, it leavens me
The food of love,
play on
the milk of my morning
The black of her iris:
my coffee
When hunger strikes
I take a bite
of the music on her lips
This bread that she is
God, it leavens me
The food of love,
play on
quarta-feira, 28 de dezembro de 2016
Melhores livros de 2016
Costumava anotar aqui no blog os "melhores" do ano, mas conforme desanimei de escrever, deixei isso de lado. No entanto, 2016 foi um ano bem produtivo, então não é má ideia compartilhar aqui o que eu li. Se não interessar a mais ninguém, serve pelo menos como registro.
Aquele que escreve para os tolos pode ter certeza de sempre ter grande audiência.
Aforismos para a Sabedoria de Vida, de Arthur Schopenhauer
Schopenhauer é o go to guy para quem quer conhecer o “lado negro” da Filosofia. Geralmente ele é criticado por ser extremamente pessimista, e não apenas por ser um carinha meio deprê, mas por realmente sistematizar toda a nossa experiência de mundo da forma mais triste e carente de significado o possível.
Partindo dessa introdução, parece surpreendente esperar que o cara tenha escrito um livro para a ajudar as pessoas a serem mais felizes, mas fez justamente isso, e muito bem. O livro é parte de uma obra maior (Parerga e Paralipomena), mas costuma ser lido separadamente, e mostra que Schopenhauer, embora bastante depressivo no seu trabalho filosófico, consegue ver com clareza a forma mais prática de se viver, não para encontrar a felicidade, o que ele considera absurdo, mas para evitar a dor e o tédio, o que, para ele, é o melhor que podemos almejar.
Se você busca a verdade, então a vida examinada vai apenas te levar até os limites da solidão e te deixar no acostamento, com sua verdade e nada mais.
The Conspiracy Against the Human Race, de Thomas Ligotti
Chamar o que o Ligotti faz de Filosofia é forçar a barra, já que o livro em si é uma obra de arte que visa chocar. No entanto, o cara realmente vai fundo na filosofia, buscando as visões pessimistas de vários pensadores. É o livro ideal para quem leu Schopenhauer e achou o cara muito otimista. Também é perfeito para quem assistiu True Detective e se sentiu atraído pela Filosofia do Rustin Cohle, interpretado por Matthew McConaughey. Por fim, é o livro para todo mundo que já olhou à sua volta e percebeu um mundo hostil, e depois olhou para dentro de si, e viu algo ainda pior.
Entre pele e pele, há apenas luz.
The Magus, de John Fowles
Foi o primeiro livro de John Fowles que eu li (antes de The French Lieutenant’s Woman) e me deixou uma forte impressão. O livro é LONGO e cansativo, mas a estética é incrível: mais de uma vez li e reli trechos e páginas inteiras apenas pelo prazer estético de um bom dialogo ou descrição.
Basicamente, é a história de um jovem professor Inglês que vai trabalhar em uma escola numa ilha grega, e lá conhece o “magus” do título, um velho milionário com muitos mistérios, e acaba se envolvendo com uma bela e ainda mais misteriosa jovem que vive com ele. Mas nesse livro nada é o que parece, e as camadas de mentiras e mistérios vão aos poucos se revelando.
É com certeza um livro confuso, mas vale muito o esforço para que seja lido, e relido.
Filhos de Maomé, se animem, pois amanhã teremos tantos cristãos em nossas mãos que os venderemos, dois escravos por um ducado, e teremos tantas riquezas que seremos todos de ouro, e das barbas dos gregos faremos coleiras para nossos cães, e suas famílias serão nossos escravos.
1453, de Roger Crowley
Nunca se deram ao trabalho de me explicar, na escola, o que foi o Império Bizantino. Só depois de terminar minha segunda faculdade (!) é que eu decidi estudar a história do Cristianismo com afinco, e me deparei com esse enorme império, invisível em todos os meus anos escolares. Mas o conheci primeiro pelo seu triste fim: a queda de Constantinopla e seu subseqüente saque pelos turcos Otomanos. Os mesmo Otomanos que por séculos aterrorizaram cristãos pela Europa e Oriente Médio, antes e depois da queda da última capital romana, e que genocidaram quase toda a população grega de um antes grande e admirável império. O livro narra justamente esses últimos momentos de Constantinopla durante o cerco de 1453.
O autor faz o trabalho de historiador com esmero, não mostrando preferências nem julgamentos de valores, sempre fazendo o possível para mostrar diferentes perspectivas e pontos de vista. Isso pode fazer com que um turco hoje leia o livro e sinta orgulho de sua história, mas para um cristão, o livro serve como uma elegia e um alerta. Até para quem não é cristão ou muçulmano, o livro fornece ferramentas úteis, mesmo para entender as relações geopolíticas do mundo atual. Ajuda a explicar, por exemplo, a antipatia e mesmo hostilidade entre Rússia e Turquia (mesmo antes do recente assassinato do embaixador russo em Ankara). Ou seja, é realmente um livro valioso, independentemente de suas opiniões pessoais.
Acreditamos que inventamos símbolos. Na verdade, eles nos inventam; nós somos suas criaturas, formadas por suas mãos.
Shadow and Claw, de Geene Wolfe
O livro é na verdade a junção das duas primeiras obras da “saga” The Book of the New Sun: The Shadow of the Torturer e The Claw of the Conciliator. Narra a história do jovem Severian, um aprendiz da Guilda dos Torturadores, que acaba se envolvendo em um conflito político e é expulso da guilda, e suas subseqüentes viagens e encontros com diversos personagens. No meio do caminho, Geene Wolfe aproveita para discutir diversas questões filosóficas, éticas, morais e religiosas, mas sem cansar ninguém: são migalhas de intelectualidade num livro cheio de aventura e mistério para agradar o nerd padrão.
Outro bônus é que Geene exibe na sua obra sua admiração pela religião Cristã (que ele conhece através do Catolicismo), que fica evidente para quem conhece mesmo só um pouco de teologia, e é um presente a mais para quem se aventura em sua obra. Esse livro, e os demais da coleção, são o melhor que a fantasia gerou, provavelmente desde Tolkien, e serve de alívio para quem tinha que se contentar com o bom-mas-nem-tanto mundo imaginário de G. R. R. Martin.
Deus é supremamente bom porque ele supremamente É.
Confissões, de Santo Agostinho de Hipônia
Este é um livro para ler, reler, e reler de novo, várias vezes durante a vida. Santo Agostinho foi um Santo e Doutro da Igreja, e seus escritos foram por séculos a principal base teológica da Igreja, tanto Ocidental quanto Oriental. Até São Tomás, Agostinho era autoridade máxima, e hoje continua essencial para quem quer entender teologia. Além disso, ele foi Filósofo e um grande psicólogo: esta é a primeira auto-biografia que se tem notícia, e o primeiro livro a adentrar os segredos da mente e buscar entender porque pensamos e fazemos coisas de uma determinada maneira e não de outra.
O livro é ainda a história da conversão do santo, mostrando suas interações com o Evangelho desde a infância, através de sua mãe cristã, Mônica, sua passagem pelo Dualismo, até conhecer, em Roma, Santo Ambrósio, que o convenceu da verdade das Escrituras. É uma história de uma vida de pecado que se arrepende e se torna alva como a neve, e ascende a Deus. É basicamente o que todo cristão busca, e é sempre bom saber que alguém alcançou as alturas, e que todos nós também podemos.
Aquele que escreve para os tolos pode ter certeza de sempre ter grande audiência.
Aforismos para a Sabedoria de Vida, de Arthur Schopenhauer
Schopenhauer é o go to guy para quem quer conhecer o “lado negro” da Filosofia. Geralmente ele é criticado por ser extremamente pessimista, e não apenas por ser um carinha meio deprê, mas por realmente sistematizar toda a nossa experiência de mundo da forma mais triste e carente de significado o possível.
Partindo dessa introdução, parece surpreendente esperar que o cara tenha escrito um livro para a ajudar as pessoas a serem mais felizes, mas fez justamente isso, e muito bem. O livro é parte de uma obra maior (Parerga e Paralipomena), mas costuma ser lido separadamente, e mostra que Schopenhauer, embora bastante depressivo no seu trabalho filosófico, consegue ver com clareza a forma mais prática de se viver, não para encontrar a felicidade, o que ele considera absurdo, mas para evitar a dor e o tédio, o que, para ele, é o melhor que podemos almejar.
Se você busca a verdade, então a vida examinada vai apenas te levar até os limites da solidão e te deixar no acostamento, com sua verdade e nada mais.
The Conspiracy Against the Human Race, de Thomas Ligotti
Chamar o que o Ligotti faz de Filosofia é forçar a barra, já que o livro em si é uma obra de arte que visa chocar. No entanto, o cara realmente vai fundo na filosofia, buscando as visões pessimistas de vários pensadores. É o livro ideal para quem leu Schopenhauer e achou o cara muito otimista. Também é perfeito para quem assistiu True Detective e se sentiu atraído pela Filosofia do Rustin Cohle, interpretado por Matthew McConaughey. Por fim, é o livro para todo mundo que já olhou à sua volta e percebeu um mundo hostil, e depois olhou para dentro de si, e viu algo ainda pior.
Entre pele e pele, há apenas luz.
The Magus, de John Fowles
Foi o primeiro livro de John Fowles que eu li (antes de The French Lieutenant’s Woman) e me deixou uma forte impressão. O livro é LONGO e cansativo, mas a estética é incrível: mais de uma vez li e reli trechos e páginas inteiras apenas pelo prazer estético de um bom dialogo ou descrição.
Basicamente, é a história de um jovem professor Inglês que vai trabalhar em uma escola numa ilha grega, e lá conhece o “magus” do título, um velho milionário com muitos mistérios, e acaba se envolvendo com uma bela e ainda mais misteriosa jovem que vive com ele. Mas nesse livro nada é o que parece, e as camadas de mentiras e mistérios vão aos poucos se revelando.
É com certeza um livro confuso, mas vale muito o esforço para que seja lido, e relido.
Filhos de Maomé, se animem, pois amanhã teremos tantos cristãos em nossas mãos que os venderemos, dois escravos por um ducado, e teremos tantas riquezas que seremos todos de ouro, e das barbas dos gregos faremos coleiras para nossos cães, e suas famílias serão nossos escravos.
1453, de Roger Crowley
Nunca se deram ao trabalho de me explicar, na escola, o que foi o Império Bizantino. Só depois de terminar minha segunda faculdade (!) é que eu decidi estudar a história do Cristianismo com afinco, e me deparei com esse enorme império, invisível em todos os meus anos escolares. Mas o conheci primeiro pelo seu triste fim: a queda de Constantinopla e seu subseqüente saque pelos turcos Otomanos. Os mesmo Otomanos que por séculos aterrorizaram cristãos pela Europa e Oriente Médio, antes e depois da queda da última capital romana, e que genocidaram quase toda a população grega de um antes grande e admirável império. O livro narra justamente esses últimos momentos de Constantinopla durante o cerco de 1453.
O autor faz o trabalho de historiador com esmero, não mostrando preferências nem julgamentos de valores, sempre fazendo o possível para mostrar diferentes perspectivas e pontos de vista. Isso pode fazer com que um turco hoje leia o livro e sinta orgulho de sua história, mas para um cristão, o livro serve como uma elegia e um alerta. Até para quem não é cristão ou muçulmano, o livro fornece ferramentas úteis, mesmo para entender as relações geopolíticas do mundo atual. Ajuda a explicar, por exemplo, a antipatia e mesmo hostilidade entre Rússia e Turquia (mesmo antes do recente assassinato do embaixador russo em Ankara). Ou seja, é realmente um livro valioso, independentemente de suas opiniões pessoais.
Acreditamos que inventamos símbolos. Na verdade, eles nos inventam; nós somos suas criaturas, formadas por suas mãos.
Shadow and Claw, de Geene Wolfe
O livro é na verdade a junção das duas primeiras obras da “saga” The Book of the New Sun: The Shadow of the Torturer e The Claw of the Conciliator. Narra a história do jovem Severian, um aprendiz da Guilda dos Torturadores, que acaba se envolvendo em um conflito político e é expulso da guilda, e suas subseqüentes viagens e encontros com diversos personagens. No meio do caminho, Geene Wolfe aproveita para discutir diversas questões filosóficas, éticas, morais e religiosas, mas sem cansar ninguém: são migalhas de intelectualidade num livro cheio de aventura e mistério para agradar o nerd padrão.
Outro bônus é que Geene exibe na sua obra sua admiração pela religião Cristã (que ele conhece através do Catolicismo), que fica evidente para quem conhece mesmo só um pouco de teologia, e é um presente a mais para quem se aventura em sua obra. Esse livro, e os demais da coleção, são o melhor que a fantasia gerou, provavelmente desde Tolkien, e serve de alívio para quem tinha que se contentar com o bom-mas-nem-tanto mundo imaginário de G. R. R. Martin.
Deus é supremamente bom porque ele supremamente É.
Confissões, de Santo Agostinho de Hipônia
Este é um livro para ler, reler, e reler de novo, várias vezes durante a vida. Santo Agostinho foi um Santo e Doutro da Igreja, e seus escritos foram por séculos a principal base teológica da Igreja, tanto Ocidental quanto Oriental. Até São Tomás, Agostinho era autoridade máxima, e hoje continua essencial para quem quer entender teologia. Além disso, ele foi Filósofo e um grande psicólogo: esta é a primeira auto-biografia que se tem notícia, e o primeiro livro a adentrar os segredos da mente e buscar entender porque pensamos e fazemos coisas de uma determinada maneira e não de outra.
O livro é ainda a história da conversão do santo, mostrando suas interações com o Evangelho desde a infância, através de sua mãe cristã, Mônica, sua passagem pelo Dualismo, até conhecer, em Roma, Santo Ambrósio, que o convenceu da verdade das Escrituras. É uma história de uma vida de pecado que se arrepende e se torna alva como a neve, e ascende a Deus. É basicamente o que todo cristão busca, e é sempre bom saber que alguém alcançou as alturas, e que todos nós também podemos.
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