segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A Adaga de Azis

Que sabes tu da vida, Azamat? Tu, que dormes com mulheres, bebes o leite da rês, se delicia em prosa e poesia. Tu, cuja lâmina dilacera vegetais e carne morta, para quem o sangue provém do acidente e do acaso. Não sentes a glória da morte e o prazer da carnificina, não conhece o gozo que há na imolação do próprio irmão. Não, Azamat, você é como uma cabra ou uma gazela, pastando e correndo sobre os campos, se deliciando sob o sol, amando seus pares. Você é um animal simplório e vil, Azamat. E eu tenho direito de torcer teu pescoço até ouvir tua espinha se despedaçar.

Meu nome não é relevante, mesmo porque sou muitos. Somos, de certo modo, irmãos, mas não como você entende a palavra. Não sou, na verdade, possível de descrever com seu vocabulário bovino, mas tentarei. Esta é minha história, Azamat, e também a sua.

Em um tempo anterior ao seu um grupo de homens e mulheres se organizou em Jerusalém, ou em cidade similar. Seu objetivo era expurgar do mundo todo o mal, a um preço. O mal era expulso junto com a vida de alguns peões e o jogo era obviamente bem pago, pois nada se faz nesse mundo sem uma intenção e um objetivo explícito; outros dizem existir também intenções secretas por trás de cada ação dos homens. Para nós, do Círculo Interior, tais intenções nos escapam o entendimento e são irrelevantes, como em breve entenderás.


A princípio nos reuníamos em qualquer lugar onde houvesse presa, embora não houvesse tal necessidade. Quando uma ameaça começou a se organizar no Oeste surgiu o pensamento empreendedor em nosso meio e começamos a agir de forma empresarial. O castelo de Hashishin foi nossa mais importante casa da Idade Média, um erro temporário. Logo as pessoas sussurravam sobre nós, sem entender ao certo sobre o que falavam, e o medo voava com as asas da noite, se espalhando pelo campo e cidades.

Mas, entenda, Azamat, meu tolo e desprezível Azamat, a fundação de nossa organização precede o tempo e talvez a criação. Nosso patrono, a Estrela da Manhã, rivalizou com o sol em brilho no despertar desse mundo. Logo o primeiro homem e a primeira mulher estavam em nossas fileiras. Foi um de seus filhos o primeiro a demonstrar ao mundo a que viemos, deixando o próprio irmão inerte sobre a terra da qual viera. Somos, entenda, um grupo de assassinos ou, mais especificamente, traidores. Nosso símbolo (já o vistes) é a serpente. Conheces o mito, de nada adianta recitá-lo. Reconheces também (deverias) que se trata da verdade. Sua mente talvez o recuse, mas o sabes em seu coração. Odeia-nos, e com razão. Matamos teus irmãos, violamos tua esposa, envenenamos teus filhos. Olhamos-vos nos olhos e sorrimos, engrenagens em nossas mentes calculam ações, independente do negror ou dor em nossos corações. Fazemos o que fazemos porque deve ser feito, assim como você nos odeia praticamente sem opção. Não posso forçá-lo a respeitar nossa arte, assim como não me obrigo a entender sua bovinez, mas exponho aqui nosso entendimento de nosso papel neste e em outros mundo.

Louvas o herói, Azamat, creio, desprezas o traidor. É o que mostra a história escrita e contada de teu povo. Mas, não terão herói e traidor convergido em muitos momentos? Não teria uma traição sido necessária para um sucessivo perdão e mesmo vitória? Não teria sido teu amado herói um traidor cinco minutos antes da Glória? Judas foi tão importante para o cristianismo tanto quanto Jesus. Não, não, foi mais! Oh, Azamat! Pare de chorar, pare de tremer, não te matarei ainda. E Brutus, não ajudou ele também a moldar o Império? Não grite, Azamat, ainda há mais a contar!

Somos mal vistos. Somos mal interpretados, todos aqueles da nossa grei. Ma, me diga, meu bom e temeroso amigo, vocês não precisam de traidores? Podemos ser quem você menos imagina ser capaz. Ou você alguma vez suspeitou de mim quando me aceitou em sua casa, me mostrando sua generosidade? Oh, Azamat, anos até conseguir a mão de tua filha em casamento, anos até conseguir ser considerado seu filho... E, não se engane, te considero como pai! Meu doce, tolo e amado pai, cujo sangue saciará a sede de minha adaga. Você desconfiou a princípio, não? Mas eventualmente me amou, apesar de tantos sinais, Azamat, tantos para que pudesse me identificar... como não podes ver?

Por um tempo (os dias, perdidos nas areias do tempo...) meu povo usou sinais que nos identificavam em nossas peles e em nossas roupas. Com o tempo e maior entendimento tornamo-nos conscientes de sinais inatos, perceptíveis apenas aos iniciados: um brilho no olhar, uma torção no sorriso, uma característica peculiar do andar... Os sinais variam, mas estão lá, gritando em nossa direção. Às vezes encontro um homem que ainda não sabe ser dos nossos e inicio nele o processo de auto-descoberta. Geralmente criamos uma adversidade, implantamos um problema e, nas mãos do inimigo, deixamos a conclusão. A mágica se faz naturalmente, enquanto a moral se dissolve e um novo irmão nasce das cinzas de um ignorante, um bezerro, de um Azamat.

Ainda noto em teus olhos vermelhos e fundos que ainda não aceita minhas palavras em seu coração... mas, Azamat! Que dizes da serpente, Azamat, aquela que trouxe conhecimento? E do coiote, que roubou para vós o que tanto necessitavam? Culparás Prometeu de um crime? Perceba, a opinião depende da posição de teu coração. Dirás que não esteve um dia entre nós? Dirás que não facilitamos ou atrapalhamos vossa vida? Perceba que somos os mais ilustres e altruístas filhos da criação. Nada fazemos por nós, Azamat, tudo por vós. Oh, é dura nossa existência, Azamat!

Dirás que o antagonista não teve sua parte na criação? Desejarias acaso viver nu em um jardim? Creio que não, Azamat. Vejo que não choras mais... Percebeste, não? Desejo matá-lo, talvez o faça um dia, mas não hoje. És um pai para mim, Azamat.

E Aziz abriu a cortina. Em laços e amordaçados estavam sua esposa, seus filhos, sua sogra, seus cunhados. Seus olhos arregalados, os rostos molhados de lágrimas e, em algum lugar, a esperança agonizante. Aziz cortou as amarras de Azamat e depositou a adaga em suas mãos.

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