detalhe de by your side, de tonysandoval
_ Há duas maneiras de se abrir uma porta...
_ Besteira, disse Alex prontamente.
_ Podemos descobrir o mecanismo de abertura...
_ Besteira.
_ ...ou arrombá-la.
_ Besteira!, gritou Alex, finalmente se colocando de pé e iniciando uma caminhada pela sala, enquanto olhava nos rostos de cada um, explicando calmamente:
_ Você sabe muito bem do poder necessário para se abrir uma porta... teríamos de saber quem a fechou, como o fez, os nomes, cada linha de encanto, detalhes do ritual... você tem esse conhecimento?
_ Precisaríamos saber tudo isso se nossa intenção fosse abrir a porta. Pretendo arrombá-la, Alex.
O silêncio de espanto de Alex se tornou uma gargalhada insana que tomou a sala e a noite. Ele chegava a tremer, e eu não sabia se aquilo era sincero ou mera afetação, mas ele se aproximou de Balthazar e agarrou seu rosto com ambas a mãos, lhe olhando bem nos olhos, e perguntou:
_ E como executará tal façanha, se é que posso perguntar, Vossa Majestade?
_ Carmem.
_... como?
_ Carmen, Alex.
Alex largou o rosto de Balthazar e caminhou para trás de forma nem um pouco decidida, cambaleou e quase caiu de costas, mas com alguma decisão caiu sobre os joelhos. Encarava o chão com horror, enquanto engrenagens de um pesadelo desencadeavam estranhas possibilidades em sua imaginação. Quem era essa Carmem, cuja simples menção colocava aquele homem em condição tão lastimável? Balthazar se aproximou, se abaixando próximo a Alex, o suficiente para colocar a mão sobre seu ombro, mas distante o suficiente para se afastar caso o pior acontecesse.
_ Calma, Alex, está tudo sob controle.
Ao ouvir essas palavras, Alex virou-se para Balthazar. Seus olhos estavam ainda mais arregalados do que antes, e seu rosto estava pálido como a lua na janela, que deitava luz sobre o homem prostrado que mais parecia uma fera atrás de arbustos, espreitando uma presa indefesa. Ele era um lobo entre cordeiros, ou pelo menos um lobo velho e poderoso entre lobos jovens e inexperientes. A respiração de Alex estava pesada, e o ar à nossa volta se tornou pesado; de repente estar vivo doía, em todos nós. Balthazar tirou a mão de sobre o ombro de Alex, mas não se afastou, e, apesar de sussurando, todos na sala puderam ouvir Alex quando disse:
_ Se algo acontecer a ela, eu enfiarei suas entranhas em sua boca, maldito! Vou cagar no buraco dos seus olhos depois de arranca-los e enfiá-los no seu cu!
_ Eu sei, Alex. E seria seu direito, mas isso não acontecerá, tudo está sob controle.
_ Voce está louco!
_ Eu tenho um plano, Alex, tudo ficará bem...
Alex se acalmou e se levantou, lentamente. Arrumou os cabelos e se aproximou da janela. Balthazar também se levantou, mas manteve distância de Alex, que olhava para a lua com estranha calma.
_ Você sabe que as coisas nunca ficam bem.
E Alex olhou para Balthazar. Eu sei que foi um olhar diferente, sei que ele disse algo que não ouvimos e Balthazar empalideceu. Somente depois de gaguejar bastante conseguir terminar sua frase.
_ Levem-no daqui...
Mas não foi necessário que Pablo ou Marquis se movessem, nem Alex nem eu tínhamos a menor vontade de continuar alí. Ainda ouvimos Balthazar tentar dizer algo, mas bati a porta antes que ele terminasse a frase.
* * *
Ele insistiu em dirigir, disse que o acalmava e que, apesar do que aparentava, estava bem. Ele manteve silêncio no início, e só depois de quinze minutos de viagem conseguiu direcionar palavra a mim.
_ Você... é uma mulher.
_ Bingo!, disse, já esperando alguma cantada desesperada de alguém que precisa de conforto.
_ Não é nada disso!, disse, com um fraco mas sincero sorriso no rosto. Você conhece a metáfora da coroa e das jóias?
Fiz que não e ele continuou sua explicação: “Papo de um heresiarca francês do século 15... Não, não esse tipo de heresiarca... É complicado. Mas, enfim, ele falou certa vez da relação entre poder e mulheres e os tipos de homens...
Ri, não sei porquê, e ele também. Me olhou nos olhos com um sorriso sem graça no rosto e continuou sua história:
_ Tipo, os homens não são todos iguais, sabia? Segundo esse cara (esqueci o nome dele) existem aqueles que querem poder e aqueles que querem amar... A linha não é clara assim, lógico, as coisas se misturam, mas eu já fui um homem do primeiro tipo. Subi vários escalões na Organização, lidando com minhas responsabilidades sobre minhas costas e nos meus joelhos, cortando gargantas e beijando mãos... Levou tempo, mas cheguei lá.
_ Você já foi lider da Organização?
_ Isso foi a muito tempo... Eu era outro tipo de pessoa, você não me reconheceria mais se tivesse me conhecido naquela época. Estava no poder já por dois anos quando conheci Lucia, a mãe de Carmem...
Novamente, Carmem. Finalmente entendi o que acontecera no segundo andar daquele prédio sujo. Alex ficou quieto e eu mantive meu silêncio; ele parecia perdido em algum lugar dentro da sua própria cabeça. Temi que ele nos enfiasse em algum poste e lhe toquei a mão, que ele segurou. Com novo fôlego, continuou a história.
_ Elas eram as jóias da minha coroa, entende? E na época eu não sabia do que gostava mais, das jóias ou da coroa... Mas você não pode manter ambas por muito tempo, é responsabilidade demais.... Uma hora você deve fazer uma escolha... E eu escolhi tarde demais.
Seu semblante se escurecia conforme contava a história. Apesar do sol começar a nascer no horizonte, sabia que estávamos nos aproximando do momento mais negro da noite.
_ As lutas por poder dentro da organização são comuns, incessantes, e eventualmente chegaram à porta da minha casa. Não só isso, mas abriram a porta, subiram as escadas e chegaram ao quarto de Lucia... Eu estava resolvendo negócios com uma antiga Casa do Norte, e quando cheguei e percebi a porta arrombada corri para o quarto... Havia sangue até no teto, e eu soube que aquilo não era coisa de seres humanos... Carmem se escondeu em um armário no porão... Menina esperta, muito mais que eu. Naquela noite eu me deparei com a escolha: Caçar meus inimigos e retomar o poder ou fugir pela segurança de minha filha e nunca mais voltar...
Percebi que ele segurava as lágrimas, seus olhos brilhavam, aquosos, sob um sol que tentava a todo custo nascer.
_Nada é mais importante que a minha Carmem.
_ Você pretende fazer o que prometeu?
_ Sim.
_ Não entendo... Se ele está com a Carmem, porque você não tenta resgatá-la? Você é mais forte que Baltazar...
_ Sou mais forte que aquele moleque, mas não mais forte que a organização inteira, e não faço idéia por onde começar. Não, não há nada para fazer. Além disso... Carmem deve estar com ele por vontade própria.
Com a última frase percebi que ainda havia muito que eu não sabia e decidi me manter quieta até ele falar denovo. As lágrimas nos olhos sumiram e ele parecia bem, apesar de tudo. Estava atento, de olho na estrada e no número cada vez maior de carros que surgiam.
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