domingo, 24 de outubro de 2010

O Seminarista (resenha)


Assim como Tristão e Isolda, Romeu e Julieta e Werther e Lotte, o casal Eugênio e Margarida faz parte da relação de trágicas almas gêmeas impedidas de se unirem devido, não aos desígnios da natureza, mas aos caprichos humanos ou da mera consequência. É, certamente, uma denúncia da desordem e caos do mundo humano, ou antes, uma demonstração dos males que os sentimentos humanos naturais, represados, podem causar ao romper todas as barreiras. Em comum nessas obras está o fato de demonstrar que o sentimento de amor profundo e incondicional (em tempos modernos considerado patologia) é legítimo, e não o são os obstáculos para sua consumação.

O Seminarista, de Bernardo Guimarães, tem mais em comum com Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, do que com Romeu e Julieta. Eugênio, o jovem apaixonado forçado pelos pais a estudar para padre, tem personalidade e espírito semelhante ao jovem Werther, ainda que mais infantil e simplório. Margarida também guarda muita semelhança com Lotte, e ambas as mulheres em ambos os livros tem pouquíssimo espaço para que suas personalidades sejam desenvolvidas: toda a ação se concentra na batalha psicológica e espiritual dos rapazes atormentados, perdidos entre se entregar ao amor ou fugir dele (e, como mostra o desenvolvimento das histórias, incapazes de exercer a segunda possibilidade).

O livro de Bernardo Guimarães, no entanto, guarda suas diferenças com o clássico alemão, já que neste a força das circunstância impede o desrolar natural da paixão, enquanto no primeiro é a instituição anti-natural e odiosa do celibato católico que despedaça a sanidade de Eugênio e a saúde de Margarida.

Guimarães opta por um estilo simples, de fácil compreensão (mas não por isso simplório) que consegue transportar o leitor para o campo de batalha da mente e coração de Eugênio. Este é um livro que carrega o leitor pelo céu e pelo inferno, ambos regados de amor, um amor ameaçado e por fim destroçado pela ignorância humana.

Bernardo Guimarães

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